30.9.07

O ano em que o rock saiu de férias



Há 30 anos, os Sex Pistols lançaram Never Mind the Bollocks e mandam o rock às favas. Ou melhor: a faceta mais, digamos, ambiciosa do rock, personificada nos longos solos de guitarra do heavy metal, nos climas épicos do progressivo. O ano de 1977 mudou tudo e mais um pouco.

Tá, isso você sabe. Acontece que, para lembrar-nos da explosão, a revista Spin lançou uma edição toda dedicada ao big bang.

A revista está cheia de artigos interessantes sobre o período, muitos deles disponíveis na internet. E, como não poderia deixar de faltar, listas! Uma delas, de Melhores Álbuns Lançados em 1977. Como adoramos listas e listas são nossas vidas, não poderíamos passar sem esta.

A lista completa está aqui, no Stereogum.

Dos que entraram, nossos favoritos:

The Clash, The Clash
My Aim is True, Elvis Costello
Damned, Damned, Damned, The Damned
The Idiot, Iggy Pop
Lust for Life, Iggy Pop
Leave Home, Ramones
Rocket to Russia, Ramones
Suicide, Suicide
Talking Heads 77, Talking Heads
Marquee Moon, Television
Pink Flag, Wire

E esses são apenas os álbuns punk. Em 1977, deve ter sido meio difícil fazer listinhas de fim de ano, hem?

O homem da caverna



Eu poderia estar aqui analisando (com bastante atraso) a história da sex tape de Meg White, eu poderia estar fazendo graça do site falso que criaram para divulgar o sétimo álbum do Radiohead, eu poderia estar roubando, eu poderia estar matando. Poderia. Mas vamos falar de música, vamos?

Eis a grande dificuldade de incluir o Iron and Wine em qualquer assunto. Em qualquer blog. Em qualquer rodinha de conversa Como encontrar um gancho, uma conexão entre as melodias de Sam Bean e este mundo doido em que vivemos? Não dá. Ele não bate perna com a Britney Spears. Ele não está na trilha sonora de Grey's Anatomy. Se bobear, ele nem sabe o que é Grey's Anatomy. O sujeito parece habitar uma caverna numa fazenda na Califórnia. De onde sai regularmente para contar-nos como é a vida lá dentro.

Estado das coisas: no momento em que até o folk surtou, e caiu no liquidificador psicodélico de um Animal Collective (ou de um Devendra Banhart), Bean ainda vive na época em que Bonnie "Prince" Billy era cotado como um provável mártir do indie rock. E que Nick Drake... Bem, Nick Drake era Deus.

O terceiro álbum do Iron and Wine, The Shepherd's Dog (**), há de receber elogios entusiasmados de quem sente saudades dessa época mais ou menos recente. Com mais fome que o próprio Billy, Bean se esforça para buscar novos caminhos, diversificar a própria sonoridade, refinar a produção e assim, quem sabe, chegar a um público que está em outras ondas. Tem até uma faixa, chamada Wolves, que inclui um certo acento dub-doidão na estética discreta do moço.

Mas (e esse conflito é interessante, notem) Bean tenta expandir a própria caverna sem aborrecer os antigos frequentadores do nicho. Curioso como é nesse remake de obras anteriores onde o álbum mais acerta: em baladas lindas como Ressurection Fern e Carousel - tristes toda vida, simples o suficiente para frisar o tom melancólico da voz de Bean. Quando tenta algo que vá além desse tipo de lamento solitário, ele também acerta. Mas o fato é: o trovador não precisa mais que isso.

E até ele deve saber que, hoje em dia, ampliar o próprio habitat pode ser esforço em vão. Aí mora o lado complicado da história: o Iron and Wine parece fadado a gravar álbuns cada vez mais belos e acessíveis. A questão é: alguém ainda se interessará por eles?

O álbum The Shepherd's Dog foi lançado semana passada pela Sub Pop.

Ouça! O álbum todo, no MySpace.

27.9.07

Em tempo real: Video Music Brasil



Pois é, garotada. Tenho uma tarefa meio ingrata esta noite. Em vez de fazer palavras cruzadas ou debater com minha avó sobre quem teria matado Taís ou comer uma bacalhoada ou brincar com meu cachorro Simba, fui convocado para representar O Grude no Vídeo Music Brasil (conhecido por estas bandas também como, singelamente, VMB).

Óbvio: não fui convidado para viajar de Brasília a São Paulo para acompanhar a festança lado a lado com, digamos, a Cicarelli. O Diego, que mora em São Paulo e é VIP, vai se infiltrar no mui badalado evento e, talvez um dia desses (do jeito que ele anda relapso com este blog, nunca), nos contará sobre o que viu, viveu e experimentou. Se Deus quiser.

Por aqui, por enquanto, ficamos com uma surpreendente (para vocês e para mim) cobertura em tempo real desta premiação da MTV que, honestamente, não interessa muito a quase ninguém. Em época de YouTube, como já diria Diego, quem se interessa profundamente por ver clipes na tevê? Em época de crise total e absoluta da indústria fonográfica brasileira, alguém ainda tem paciência de acompanhar a Pitty ganhar cinco prêmios importantes a cada semestre?

Paciência, né.

É por isso que chutei o balde este ano: não sei quais são os indicados, não tenho a menor idéia de quem vai vencer e ficarei boquiaberto, exatamente como você vai ficar, se a Sandy ganhar o prêmio de melhor cantora lírica de 2007. Caixinha de surpresas, essa vida.

Não estou totalmente, totalmente desinformado a respeito do VMB. Sei que, além da Pitty, o Cachorro Grande recebeu uma pá de indicações. E que o Nx Zero é queridinho da juvenília delirante. Que Marilyn Manson e Juliette and the Licks vão passar na alfândega e nos oferecer uma palhinha com selo de produto importado. E que vai ter Ira! na parada. Ira! Sério? Mas o Ira! não tinha acabado?

Que seja. Repito: você não esperava por esta cobertura (por isso mesmo, você não estará acompanhando esta cobertura hoje, exatamente agora, já que você não sabia da existência desta cobertura), nem eu. Estou com uma dor horrível de cabeça, com 40 graus de febre, dor de barriga e meus pés estão gelados (não sei se isso é bom ou ruim, no contexto). Resistirei bravamente até o fim da maratona? Acompanhem daqui a pouco. Já venho.

Cobertura em (uh!) tempo real

21h42 - No pré-show, Marcos Mion amarrou um pano de prato no pescoço e deu um selinho na Juliette Lewis. Antes disso, rolou a eleição do sujeito mais pançudo do ano. Não perdemos nada por enquanto, vou ali saber da novela.

21h57 - Ainda no pré-show, Lulu Santos cortou a Penélope Nova e, talvez para poupar-nos de tanto constrangimento, apagaram a luz e os dois ficaram no breu por alguns segundos. Ahn. Uma coisa: esse pré-show tá rolando debaixo do bloco, é? Em algum prédio empresarial? Que pilastras são aquelas? Lugar-comum: todos os convidados dizem que é uma honra participar do VMB, mas que o bom mesmo é a festa depois da premiação. Por que será, né?

22h21 - No interminável pré-show, a incansável Penélope Nova quase obriga o Paulinho da Viola a fazer a dança do siri. Isso é só o começo. Vou pegar um mate gelado.

22h25 - Dinho Ouro Preto comentou que participar do VMB é "a melhor coisa do mundo, cara", e que toda a premiação "é foda, cara", e que ele quer ver "grandes shows, cara", e que se apresentar ao vivo "é uma responsa, cara". Pois é, cara. Volto quando essa bagaça começar, cara.

22h39 - Ao contrário da maior parte dos shows de abertura do VMB, este não teve problemas sérios de som. De indiazinha, Juliette Lewis está mandando bem, obrigado. Antes dela, a Cicarelli fez piadinha escrota com a Britney Spears e distribuiu galhos de arruda para a platéia. Começou.

22h44 - Revelação do ano: Fresno. Eles se vestem como se tivessem acabado de assaltar um brechó, e, até de forma bastante previsível, afirmam estar vivendo o "melhor momento da vida". Vidas vazias, ó.

22h56 - O hit do ano é Razões e emoções, do Nx Zero. E o nome da canção diz tudo.

23h00 - Ao piano, Sandy canta agoniadíssima uma música sobre a dificuldade existencial de lidar com as agruras do showbusiness e com as tensões do comércio eletrônico no século 21. Enquanto isso, Júnior tenta nos convencer de que toca tão bem quanto o Santana.

23h06 - Um tal de Strike tirou do Vanguart o prêmio Aposta MTV. Não ouvi e não gostei.

23h17 - O vencedor do "web hit do ano" é o Vai tomar no cu. Não sei se vocês acreditam, mas nunca vi isso! Sério. Eu sabia da existência, mas nunca me interessou nem nada. O que eu estou fazendo aqui, minha gente?

23h20 - Mas Juliette Lewis cantando "vai tomar no cu" foi genial. A moça tá roubando o show ou é impressão?

23h21 - Já a Pitty... É aquela mesma coisa. Sempre. E mais uma vez.

23h29 - Vestida de gueixa, Lovefoxx apresentou da Inglaterra o prêmio de artista internacional do ano acompanhada das minas do Cansei de Ser Sexy. Venceu o Red Hot Chili Peppers. Venceu do White Stripes. E do Justin Timberlake. Só no Brasil essas coisas acontecem, tsc.

23h40 - Pitty ganhou clipe do ano. A música é Na sua estante. Que (acreditem) nunca ouvi. Mas que, percebam, parece com muitas outras músicas que ela cantou antes.

23h47 - Tá rolando um show de rap sonolento, sonolento. Vou ali tomar um iogurte.

23h53 - Na "banda dos sonhos" da MTV, adivinha quem é a vocalista? Hein? Hein? A Pitty, claro. Sensação de já ter visto este programa de tevê antes...

23h56 - João Gordo pergunta para a ex-BBB Íris qual é a sensação de participar do VMB. "Nunca imaginei estar aqui", começa a moça. "Parece até um pesadelo. Ou um sonho maravilhoso". Ou o quê?

0h02 - A "banda dos sonhos" arrisca Ainda é cedo, da Legião. E eu queria muito já estar dormindo nessa altura do campeonato.

0h08 - Na categoria Você fez, os espectadores da MTV são provocados a fazer clipes inspirados nos indicados a melhores vídeos do ano. O resultado é muito tosco, mas mesmo assim eles ganham um prêmio, sobem no palco e fazem discurso.

0h10 - Eu disse a vocês que estava muito amargo, não disse?

0h14 - Lobão acústico é o embuste do ano. Pronto, falei.

0h18 - Ok, vá. Até aqui, este é um dos VMBs mais profissionais da história da MTV Brasil. Sem tropeços, sem gafes, uma coisa tão correta que... dá saudades dos chiliques de Caetano Veloso...

0h28 - O Cachorro Grande tem o melhor show? Hmm. Bacana, mas os últimos do Los Hermanos mereciam ter sido lembrados. A ceninha entre Bárbara Paz e Paulo César Peréio confirmou que este é o VMB dos palavrões. É porra. É caralho. É puta que pariu. É cu. Minha vó ficaria chocada.

0h35 - Marilyn Manson tá parecendo a garota do Fantástico que voltou das trevas para puxar o pé das criancinhas inocentes. Que porra de maquiagem é essa?

0h37 - Até agora, se eu tivesse que dar uma nota para o VMB, seria 5. Foi um programa de tevê assim: bem na média, na média. Menos histérico que o VMA, mais previsível que último capítulo de novela. A MTV Brasil está numa cilada: num país com uma indústria de discos falida, vai ser inevitável que o VMB do ano que vem pareça muito com o VMB deste ano. A Pitty vai ganhar muitos prêmios. E o Charlie Brown vai ser indicado a alguma coisa.

0h52 - Artista do ano: Nx Zero. Tá certo. É coerente. Eles têm o hit do ano. Eles são a versão masculina da Pitty, submetida a um cruzamento com o CPM 22. Eles têm franjas. Eles têm moicano estiloso. Eles usam boné para trás, feito os Backstreet Boys. Eles estão aí. Eles vão invadir sua praia. Ok. Me tirem daqui. Agora. Já.

Boa noite.

Atualização (14h55 de sexta) - Diego avisa que não conseguiu comparecer ao VMB (sorte a dele). Por isso, tudo o que vocês têm aqui será exatamente tudo o que vocês terão sobre esse assunto fajuto. Considerem-se premiados.

24.9.07

PJ Harvey: When under ether

Desculpe-me. Foi mal. Mas, desde sexta-feira passada, praticamente metade da redação d'O Grude (isto é: eu) encontra-se sem palavras diante deste álbum tão curto, tão cruel e tão lindo chamado White Chalk.

Sei que vocês não estão nem aí para ele, mas eu insisto em fazer de conta que não sei.

Antes de virarmos a página para um outro assunto qualquer, mais mundano e menos assustador, que tal relembrarmos que, além de ter lançado o disco mais esquelético da temporada, PJ Harvey também escolheu como primeiro single uma canção que... ahn, bem, er... Ouça aí, depois conversamos.



Dizem que o vídeo não é oficial nem nada, mas eu não duvidaria se fosse. Ah, os mistérios doloridos da alma humana!

21.9.07

O retorno da musa atormentada



À revista Uncut, PJ Harvey admitiu um método quando grava um novo álbum: se possível, ele será idealizado como o oposto perfeito do disco anterior.

Faz todo sentido. Ou pelo menos desde To Bring You My Love, de 1995. Se aquele era um trabalho com forte acento de blues e soul, o seguinte, Is This Desire (1998), seria esparso, com influências de trip hop.

Depois, como seguir adiante? Com belos passos para trás. Contra o minimalismo, Stories from the City, Stories from the Sea (2000) recorreu a guitarras violentas, a letras simples e confessionais - um álbum de rock (e uma obra-prima). Uh Huh Her, de 2004, rompeu o formato em uma espécie de pós-punk arredio, árduo. Um dia, depois o outro.

Dentro desse processo de evolução "na marra", o novo e impressionante White Chalk (***) é mais um capítulo. Que pode ser encarado como um episódio surpreendente dessa história - mas só por aqueles que não conhecem essa história.

No álbum, a moça retorna aos produtores Flood e John Parish (dos álbuns de 1995 e 1998), mas sem saudosismo. Para começar, guarda as guitarras no armário. Para espanto de... quem? Dedica-se principalmente ao piano, que aprendeu (ou, como ela prefere afirmar, tentou aprender) especialmente para o disco. O resultado é o álbum mais fantasmagórico da musa deprê. Parece ter sido gravado numa casa mal-assombrada, com goteiras, morcegos e uma menininha desesperada presa no porão.

Com faixas concisas, arranjos econômicos, refrões invisíveis e letras enigmáticas, é álbum-de-rodapé para ser guardado na mesma estante de The Eraser, do Thom Yorke, Pink Moon, do Nick Drake e Vespertine, da Björk. Melhor ainda: um disco triste e quebradiço que merece figurar ao lado de toda essa gente boa. Estaria PJ ouvindo Joanna Newsom?

Pouco importa, já que faixas como Dear darkness e When under ether são muito diferentes e muito iguais a tudo o que ela já gravou. A dor não passa. "Não me reprima pela forma vazia como minha vida ficou", ela implora, em Broken harp. Engraçado isso: ela faz tudo para mudar, mas continua reconhecível desde o primeiro acorde.

O álbum White Chalk será lançado dia 25 de setembro pela Island.

Ouça! When under ether, na Pitchfork.

20.9.07

Mutantes - mais um fim



Jamari França, do Globo, publicou hoje em seu blog que Zélia Duncan deixou os Mutantes. Zélia era vocalista da banda desde a reunião do grupo, iniciada há pouco mais de um ano e meio. O motivo, segundo a cantora, é sua carreira solo. Em seu comunicado oficial, ela põe panos quentes no assunto:

"Fez um bem enorme pra minha carreira, pra minha vida e para as minhas futuras coragens. Eu que sempre quis me sentir banda, fui parar no olho do furacão! E adorei! Obrigada Sérgio , Arnaldo e Dinho, por me deixarem ser ali, junto com vocês, enquanto durou…pra sempre! Ainda nem sinto meus pés no chão…"

Para quem viu algum desses shows da reunião dos Mutantes e está no time dos que não conseguiram engolir a cantora no lugar de Rita Lee (tipo eu, que os vi na festa de aniversário da cidade de São Paulo, primeira apresentação deles no Brasil depois da volta), a notícia não chega a ser ruim.

Mas o post do Jamari fala ainda em uma "possível baixa" de Arnaldo que, segundo Sérgio, estaria muito cansado por causa da turnê (a ponto de não ter participado de três shows). Sérgio disse que também não sabe se seu irmão participará da gravação do álbum de inéditas da banda, prevista pra começar em outubro.

Ok, já vimos essa história antes. Acho que a gente pode dizer que os Mutantes acabaram. De novo.

ATUALIZAÇÃO (18h06): Jamari atualizou o blog, confirmando a saída de Arnaldo. Ele vai se dedicar a projetos pessoais como o lançamento de seu livro e de dois CDs com a Patrulha do Espaço.

Cabô então.

19.9.07

LCD Soundsystem: Someone great

Uma das músicas mais espetaculares de 2007 finalmente ganhou a chance de se materializar em single e clipe (e eu cheguei a pensar que isso nunca aconteceria!).

Aleluia, irmãos.

Tem uma notícia boa e uma ruim, qual você quer primeiro?

A ruim: o clipe, dirigido por Doug Aitken, não é essa Coca-cola toda. Por isso é inevitável passar os olhos pelas imagens, achar a idéia engraçadinha (um vulto entre nós? Oh) e, finalmente, notar que Someone great, do LCD Soundsystem, é... uma canção espetacular.

Digam se estou errado.



A boa: a música é espetacular, né?

Em tempo
O álbum novo do Foo Fighters, que nem o Diego teve paciência de dissecar, é aquela coisa morna mesmo. Mas venhamos e convenhamos: Dave Grohl nunca conseguiu juntar três faixas tão poderosas quanto as primeiras de Echoes, Silence, Patience & Grace (**). Depois de atacar os "falsários" de plantão (The pretender), desancar Courtney Love pela décima vez (mas com muita classe, em Let it die) e explodir em fúria de macho vingativo em Erase/replace (a minha favorita do disco), não há muito a ser dito. Ah, se álbuns tivessem apenas três faixas...

18.9.07

Chulo, desbocado coração



Você conhece Kevin Drew?

A resposta mais sensata a essa pergunta é "não, não vi mais gordo". Até ontem, poucos conheciam Kevin Drew. Escondido no coletivo canadense Broken Social Scene - ao lado de Feist (é ela na foto aí acima), Emily Haines, Brendan Canning e mais 15 músicos -, o sujeito ficou mais ou menos visível (no núcleo duro do nicho, diga-se) por, durante as performances da banda, distribuir abraços para um público atônito diante do desbunde quase hippie.

É uma espécie de beijoqueiro do indie da América do Norte.

O que pouca gente sabe é que boa parte do caos controlado do Broken Social Scene vem das conexões neurais de Kevin - que, com Brendan, distribui tarefas na banda-comunidade. Por isso, nada mais justo que o primeiro álbum da série Broken Social Scene Presents seja a estréia solitária de Kevin. Daí, nem vale se surpreender: Spirit If... (***) é tão bom (ou melhor) que os recentes da Feist, ou os dois complicadinhos do... Broken Social Scene.

O bacana do projeto é que, apesar de construído como coleção de canções introspectivas e "pessoais", ele é defendido por toda a turma do Broken Social Scene, que toca instrumentos e faz participações até com vocais. É um caso raro (como bem notou a resenha da Pitchfork) de um projeto solo engordado por uma grande banda - mas que nunca deixa de soar como um projeto solo.

Como manda o figurino do rock canadense, as letras de Kevin desabam em fluxos de consciência que, de imediato, não fazem muito sentido. Aos poucos, ele impõe pelo menos uma marca: a forma adorável como destila um tipo chulo de romantismo, em faixas desbocadas (e belíssimas) como TBTF (que significa, veja só, Too beautiful to fuck) e Fucked-up kid. Ele xinga, xinga, e a gente fica tentando entender por que acha tudo quase sublime.

Apesar de abrir com as camadas de ruídos típicas do Broken Social Scene, o álbum logo desvia para sonoridades mais claras e um clima de doce angústia que às vezes lembra Pavement, às vezes Yo La Tengo, às vezes Sonic Youth. São referências que poderiam ter sufocado o moço, mas ele demonstra ter sinceridade para dar e vender.

Não é o que interessa?

O álbum Spirit if... foi lançado esta semana pela Arts & Crafts.

Ouça! Backed on the..., no MySpace

17.9.07

Clipe novo do Interpol

E finalmente caiu no YouTube o belo (e ultrapretensioso, como tudo o que eles fazem) video de No I In Threesome, do Interpol, que havia sido liberado hoje apenas no player de videos da Amazon.com.

Filmado como um único e falso plano-seqüência , No I In Threesome tem ecos de Tarkovski aqui e ali e é beeeem melhor que o frustrante video de The Heinrich Maneuver (que, não fosse pelos dois últimos segundos, seria uma obra-prima).

O clipe é dirigido por Patrick Daughters, que fez videos para a Feist (inclusive o incrível 1 2 3 4), Kings of Leon, Beck, Liars, Muse, vários dos Yeah Yeah Yeahs (Maps é do sujeito) e, pelo jeito, adora um plano-seqüência. Talentoso, ele.



Gostaram?

Ella Ella

Ê, ê.



Gosto mesmo e taí pra todo mundo ver.

15.9.07

R.E.M.: I took your name

Como interpretar o dia em que uma banda muito íntegra começa a lançar desesperadamente coletâneas de greatest hits e álbuns ao vivo? Reflexo de crise das gravadoras? Ou sinal de decadência mesmo?

O R.E.M. faz de conta que o fracasso (alguém lembra?) Around the Sun não existiu e retorna novamente ao próprio passado no projeto R.E.M. Live, que sai dia 16 de outubro pela Warner.

O disquinho terá também versão em DVD. É daí que começam a escapulir os primeiros trechos de registros de shows, já disponíveis nos YouTube da vida.

Como, por exemplo, este aqui: uma performance glam, com um quê da turnê Zoo TV, do U2, para I took your name. A faixa está em um álbum que, mais cedo ou mais tarde, há de ser considerado um dos grandes momentos da banda - ou pelo menos um dos menos previsíveis (Monster, de 1994, que eu adoro).



A letra explica tudinho: I don't want to be Iggy Pop, but if that's what it takes... hey! Ah, certo. Então era isso, Michael Stipe?

Fonte: Stereogum

14.9.07

A volta do Led


O Led Zeppelin está de volta (uhul). Para apenas um show, mas de volta. Os integrantes sobreviventes devem tocar juntos no dia 26 de Novembro, em Londres, em um concerto beneficente que acontece na arena o2 (o antigo Domo do Milênio).

Para comprar ingressos, os fãs precisam se registrar no site do evento e rezarem muito para serem um dos 20 mil felizardos (?) sorteados para comprarem os tickets (cada um custa 125 libras).

Aparentemente, a humanidade inteira está se inscrevendo para o tal sorteio. A NME diz que, só ontem, 25 milhões de pessoas despejaram seus nomes no site.

Depois de ouvir o último disco dos Foo Fighters, aposto que o de Dave Grohl deve estar lá.

Próximas atrações



Ao New Musical Express, Eminem abriu a matraca e informou que está em estúdio - se pudesse, avisou o garoto-enxaqueca, lançaria o álbum novo "amanhã".

Engraçado. Eu tinha quase certeza de que o fiasco Encore seria saída de cena do moço. Ele não estava exausto do showbusiness? Era tudo golpe de marketing? Hmm. Se esse retorno sair tão insípido quanto o do Jay-Z (Kingdom Come merece ser arquivado na seção "grandes equívocos do hip hop"), será o último prego no caixão de uma era.

Já o Coldplay divulgou ao semanário uma lista com nomes de músicas do trabalho novo, com dedo de Brian Eno. Eles dizem que querem um álbum "conciso", com 9 faixas e, estourando, 42 minutos de duração. Cansaram dos épicos gordurosos? Ah, que bom seria.

Promessas e mais promessas.

A revista Rolling Stone, nada boba, juntou alhos e bugalhos e criou um especial bacana com 28 lançamentos previstos para os próximos meses. De Bruce Springsteen (que estou ouvindo neste exato momento, e parece bom) a Alicia Keys. Para cada álbum, um textinho explicando do que se trata, com entrevistas e escambau. Confira aqui (sério, vale a pena). Dá pra saber, por exemplo, que Dave Grohl acredita ter criado "as melhores músicas da vida" no álbum novo do Foo Fighters.

De ilusão também se vive, né mesmo?

13.9.07

Japas cafeinados


J-pop e j-rock são gêneros meio restritos a um gueto no Brasil: o dos fanáticos por cultura japonesa (não necessariamente japoneses), leitores vorazes de mangá e nerds que se vestem como seus personagens preferidos (cosplayers).

Eu não dava muita atenção a bandas vindas de lá até ouvir com um pouco mais de cuidado o disco Now Is the Time! (2006), dos Polysics, uma espécie de Devo japonês animado por Red Bull depois de um choque elétrico.

Há tantas mudanças de andamento em cada música, e tantos barulhinhos, guitarras, sintetizadores e vocais incompreensíveis (em japonês, inglês e em uma língua espacial própria da banda), que a experiência de ouvir o álbum pode se tornar um pouco incômoda em dias propensos a enxaquecas. Eu mesmo ouvi a coisa toda aos poucos, em doses cuidadosamente planejadas para não sofrer uma overdose de informações sonoras.

Baixei só um disco. Vou demorar para baixar outro (há mais 6). Mas vou. Não resisto a nada que pegue a música pop, jogue-a na parede, pise em cima, torça-a, vire-a do avesso e tinja o que sobrou com cores berrantes. O clipe de I My Me Mine dá idéia da diversão caótica da coisa toda:



Ouça! Catch on Everywhere, Baby Bias e Electric Surfin Go Go no MySpace.

Foo Fighters: nada mais a perder



Até tentei entrar em contato com o mui ocupado Diego, mas os contratempos loucos da vida na metrópole impediram que eu fizesse ao rapaz a pergunta que não quer calar: será que ele, fã número um de Dave Grohl, teria ficado de quatro pelo novo álbum do Foo Fighters?

Desde ontem, o disco já deve ter sido testado por mais gente que o público de Tropa de Elite. Oficialmente, ainda nem passei perto dele. Mas já posso adiantar: a nova dobradinha entre Gil Norton (produtor de The Colour & The Shape, o mais saboroso da banda, meu preferido coisa e tal) e o incansável Grohl talvez tenha rendido o álbum mais ambicioso do Foo Fighters - e também o mais perigosamente próximo daquilo que, há alguns anos, chamavam de soft rock.

Sabe The Eagles? Sabe Chicago? Pois bem. Às vezes, em alguns momentos soltos aqui e ali, o novo Foo Fighters estica os braços para alcançar uma espécie de "profissionalismo clean" - com violões dedilhados, solos de guitarra blueseiros, faixas instrumentais introspectivas e o diabo a quatro - que não tem nada, nada a ver com a espontaneidade quase tosca que Grohl colocou em prática na estréia do grupo (de 1994), ainda à sombra do Nirvana.

Tudo isso representa, de qualquer forma, uma vontade de não ficar parado feito poste, de arriscar. Ainda que a idéia dele de sofisticação pareça ser começar uma canção com um, er, violão dedilhado e depois transformar essa mesma melodia em um solo de guitarra apoteótico. Paciência.

Ouvi muito pouco (ainda que não oficialmente, repito) o Echoes, Silence, Patience & Grace para tirar alguma conclusão digna de nota, mas dá a impressão de que Grohl pegou o álbum duplo In Your Honor, juntou o disco acústico com o disco "pesado" (às vezes numa mesma faixa) e deu no que deu.

Até a terceira música, porém, fica uma grande, incontornável questão: por que, nesta maré de shows internacionais de fim de ano, ninguém cogitou chamar o Foo Fighters para dar um pulo até aqui? Eu, que nem curto muito o disco, cairia no choro durante Erase/replace e Let it die.

Levantar estádios? O álbum novo oferece mais três ou quatro argumentos de que, nesse ramo, Grohl ainda é rei.

Ouça! The pretender, no MySpace.

12.9.07

Kanye West: Good life

A absurdamente ridícula batalha dos rappers, todo mundo já sabe quem venceu. Mas, para pisar com força o beiço de bebê chorão de 50 Cent, Kanye West acaba de lançar um clipe muito bacana para Good life, próximo single do elogiadíssimo álbum Graduation.

O tratamento visual lembra muito as camisetas mutantes do vídeo de D.A.N.C.E., do Justice, não lembra? Ok, deve ter sido mera coincidência.

Delírio sabor morango



Com o Animal Collective é assim: há os que não suportam passar perto, há os que tentam e desistem, há os que têm pesadelos só de pensar no assunto (Diego?) e, finalmente, há os que não podem viver sem. Já vou avisando: faço parte desse último grupo.

Confesso que fica cada vez mais difícil oferecer argumentos positivos aos que têm alergia a esse quarteto de Nova York. A banda não vai (nunca?) facilitar o trabalho de ninguém. Na falta de termo melhor, blogs metidos a besta e sites bacanas espalham que o novo álbum representaria o momento pop do coletivo liderado por Panda Bear e Avey Tare. Mas pop? Mesmo?

Duvido. Eu, que já estou intoxicado pela sonoridade do grupo (que alguns chamam de freak-folk, ou de nova psicodelia, mas não consigo classificar direito), não tenho condições de identificar se eles ficaram mais atraentes a um outro público. Não sei. Eu recomendaria todos os discos deles a você, mas com uma restrição: eles exigem dedicação, e talvez você não terá tempo, paciência ou simplesmente vontade de apostar nisso.

Este post, por exemplo, deve desabar o número de acessos a este blog. Mas é a vida!

Os detratores do grupo (e são muitos) dificilmente tirarão da minha cabeça que Strawberry Jam (****) é um dos álbuns imperdíveis de 2007. O que fazer? Esta parece ser uma guerra perdida. Para quem tem fé na bicharada, fica muito complicado não se render a um disco que revela a banda com total domínio de um estilo criado por eles mesmos - e, ao mesmo tempo, com um desejo imenso de expandir essa estética, de caminhar rumo a territórios desconhecidos.

Eles não descansam. A ênfase nos vocais e a opção de valorizar a performance ao vivo no estúdio (sem tantos efeitos de produção) fazem deste o trabalho mais caloroso, mais "humano" deles. E eles são os primeiros a reconhecer o esforço. Now I think it's alright to sing together, admitem, na excelente For reverend Green . Antes, Chores reafirma o gosto por mantras que, para os menos acostumados, podem acabar soando como versões lisérgicas da canção-tema de O rei leão.

Em entrevista à Pitchfork, Panda Bear (que lançou este ano o ótimo, dopado Person Pitch) revelou de onde saiu o nome do álbum. Sentado na poltrona de um avião, ele admirava o brilho da luz do sol num daqueles potinhos de geléia de morango que costumam vir no serviço de bordo. Aí veio o clique. "Eu queria que a sonoridade do álbum parecesse com aquela imagem", disse. Juro que ainda não entendo, mas sorrio quando penso na idéia.

Ok, é uma seita. É uma bobagem. É um jogral pré-escolar. É um universo de acesso não muito imediato. Mas é um universo. Digam que estou louco, mas quantas bandas conseguem criar algo assim?

O álbum Strawberry Jam foi lançado ontem nos Estados Unidos pela Domino.

Ouça! Peacebone, no MySpace

11.9.07

Felicidade se compra



Já ouviram o álbum pop do Hot Hot Heat? E aí?

Numa primeira escutada, a experiência pode provocar coceira e dor de dente. Você ouve aquele pianinho à soft rock, aqueles refrões escancarados que caberiam tão bem nos créditos finais de fitas de ação, aquela produção que limpa as canções feito Bom Bril e você acaba esperando que os canadenses improvisem algo com bréla-bréla-ê-ê no final da segunda faixa.

Não chegam a tanto. Mas poderiam muito bem ter chegado. Happiness Ltd. (**) vai para a galera. De braços abertos e seios de fora.

É aquela coisa: depois de estrear em uma gravadora grande e vender apenas razoavelmente bem (infelizmente, já que Elevator, de 2005, é até bem simpático), o quarteto não tem muito a fazer além de apelar. E, entre os muitos significados que a palavra "apelar" pode receber no dicionário do pop rock, um deles é "convocar Rob Cavallo para a produção". Mais conhecido por ter dado um tapa em toda a discografia do Green Day, o sujeito fez cirurgias plásticas em hits da Jewel, do Kid Rock e Alanis Morissette.

O que Cavallo faz é limar tudo o que havia de mais ou menos sujo nos discos anteriores e formatar as canções do grupo para caber nas rádios entre, digamos, Avril Lavigne e Fall Out Boy. Simples, já que o todo-poderoso também integra o alto escalão da Warner e, por isso mesmo, não gosta de ficar queimando dinheiro por aí.

Tomara que o disco faça muito sucesso para que, finalmente, eles gravem o belo disco prometido desde... sempre?

Happiness Ltd vem em embalagem purpurinada até demais. É um disquinho muito dado, muito oferecido, ele vai fazer de tudo para ser seu melhor amigo. Nos rompantes mais excessivos, chega a lembrar afetações de The Killers e My Chemical Romance (a faixa-título é quase-quase uma operazinha-rock). Mas, se você abrir o coração para esta picaretagem e encará-lá como guilty pleasure, duvido que ficará sem mexer os dedos do pé durante, por exemplo, Harmonicas & tambourines. E, no mais, eles só não vão transformar Outta heart em um monster single of the year se não quiserem.

Sabe que nem acho ruim?

O álbum Happiness Ltd foi lançado hoje nos Estados Unidos pela Warner.

Ouça! O disco todinho, no MySpace.

10.9.07

VMA - A triste ex-festa do videoclipe

A MTV tenta. Isso a gente não nega. Em tempos de YouTube, DailyMotion, P2P e pulverização de ídolos, realmente não faz muito sentido apostar em videoclipes na programação. Nem em premiá-los, a não ser em algumas categorias técnicas que nem são exibidas no Video Music Awards.

Se a festa tem que acontecer de qualquer maneira, o que resta então? Apresentações fracassadas como a de Britney Spears, claro. Overdose dos poucos grandes ídolos que ainda existem, também.

Britney foi responsável pelo grande momento da noite. Aquele que todos vão comentar por um tempo (uma semana, no máximo). Uma espécie de meltdown público e já esperado, transmitido para 2 bilhões de pessoas. Um cachorro morto sendo impiedosamente chutado. Todo mundo sabia que isso aconteceria, apesar de muitos torcerem para um retorno triunfal (até eu, assumo). Os produtores, espertíssimos, jogaram em cima dos ombros da mulher a responsabilidade de abrir a maior festa da emissora, o que contribuiu para o clima de "ou tudo ou nada" que se instalou nessa última semana antes da premiação e da apresentação de Britney. O resultado foi esse aí: diversão e mídia por um bom tempo às custas da carreira enterrada de uma celebridade de quinta.

Os poucos ídolos que sobram, Rihanna e Justin Timberlake, foram aproveitados sempre que podiam. Premiados com 2 troféus cada um, consagraram-se em meio aos defuntos (Britney) e às moscas de sempre, outrora grandes ídolos. Ninguém vai ligar para 50 Cent ou Fall Out Boy daqui 5 anos.

Kanye West, novamente rejeitado pela premiação (Stronger não levar nada prova que, de videoclipe, a MTV já não entende mais mesmo), deu piti e disse que nunca mais aparece lá. À esta altura, diria que ele não tem absolutamente nada, nada, nada a perder.

Go, YouTube!

Por Diego Maia




A seguir, a cobertura minuto a minuto da festa.


(15:41 de 10/09) BRITNEY SEM CALCINHA. Como eu previ aqui, Britney Spears realmente foi fotografada sem calcinha ao sair da premiação. Aos tarados de plantão, um presente.

(00:23) FIQUEM COM BRITNEY. Vejam e revejam o flop mais anunciado do ano. Vou dormir. Inté.

(00:13) CABÔ! Britney desastrosa (aposto que a colocaram lá sabendo da merda que ela faria, que isso geraria buxixo e etc), Timbaland e Jay-Z reis da cocada preta, emos desaparecendo (mas nem tanto, vide a vitória da cria do Fall Out Boy, Gym Class Heroes), duas horas de shows desinteressantes, festas nos apês e categorias sem-graça. Se a MTV tiver muita sorte, dura até 2010.

(00:09) JUSTIN. Pô, o Justin é foda. Numa próxima encarnação, gostaria de ser ele, mas com cara de homem.

(00:06) TIMBAFRIENDS. Embarangaram Nelly Furtado. Colocaram Justin Timberlake pra dar um up na apresentação. É tipo a reunião dos parceiros do Timbaland no palco? Cadê a Bjork?

(23:58) VIDEO DO ANO. Não vai ser Justice, vamos ser realistas. Justin Timberlake ou Kanye West são aceitáveis. Deu Rihanna. Tenho certeza de que essa overdose faz parte de algum plano de dominação alienígena. Ou isso ou essa música esconde mantras satnânicos. Ella, ella = Satã é seu senhor. Ê, ê = sua alma lhe pertence.

(23:53) FIGURÃO. Mary J. Blige apresenta... apresenta... Deus? Bono? Kurt Cobain? Timbaland? Não. Dr. Dre. Ok, ele é importante. Ele produziu muita coisa foda. Ele decobriu talentos. Mas vai fazer drama assim lá longe, mulher.

(23:49) NA MOSCA. Comentário de um dos meus amigos de república sobre a chatice da MTV: "O próximo VJ deles vai ser o Raul Gil". PERFEITO!

(23:45) MELHOR NOVO ARTISTA. Num mundo justo: Amy Winehouse. Num mundo legal: Peter Bjorn and John. Num mundo em que não vale a pena viver: Carrie Underwood. Gym Class Heroes? Não conheço. Não quero conhecer. Vou ali tomar um milk shake.

(23:39) RESP: SUICÍDIO. Show do Linkin Park ou aturar Jamie Fox?

(23:38) FESTA DO KANYE - PART DEUX. Aposto que ele mal consegue esperar para que desliguem as câmeras e a orgia comece.

(23:32) ALICIA NO PALCO. Alicia Keys é o que Amy Winehouse seria se ela tivesse nascido nos EUA e não chafurdasse em cocaína. Então, Amy, não abandone as drogas, por favor. Atualização: Amy Winehouse nunca faria cover de Freedom.

(23:25) RIHANNA + FALL OUT BOY. Cool. A franja emo ela já tem.

(23:23) MELHOR BANDA. Vai dar Fall Out Boy. Eu gosto. Planejo fazer uma franja e tudo. Já comprei a maquiagem pros olhos. Será que cabe a foto do Pete Wentz pelado aqui? A gente atrairia muitos visitantes pelo Google, Tiagão.

(23:17) LINKIN PARK. Show do Linkin Park ou extrair os dentes do siso? Show do Linkin Park ou alimentar o papagaio? Show do Linkin Park ou passar roupas? Show do Linkin Park ou sair pra comprar um sofá com a sua mãe? Show do Linkin Park ou andar a pé até o Capão Redondo just for fun? O que parece mais divertido a vocês?

(23:08) FESTA DO KANYE. Quem acha que essas mulheres são todas whores põe o dedo aqui.

(23:06) CONSTATAÇÃO. 50 Cent é um bebezão patético.

(23:04) GO SHIA! O cara que tá pegando a Rihanna apresenta o prêmio de artista feminina do ano. Deu Fergie. Um astronauta pra ela e outro pra bunda dela.

(23:02) ER... Justin Timberlake elogiou a performance de Chris Brown. Só registrando.

(22:59) MAIS VIDEOS. Justin pediu mais clipes. Ele não conhece o YouTube?

(22:55) ARTISTA MASCULINO. As bitches de The Hills apresentam o artista masculino do ano. Qualquer coisa menos Robin Thicke, por favor. E... deu Justin. Estão um ano atrasados mas tá valendo. O artista masculino do ano não foi indicado: Jay Vaquer. Brincadeirinha!

(22:50) INTERVALO. Tiago, vá catar pequi. Mas, pensando bem, em termos de cultura pop, uma apresentação falha de Britney Spears é muito mais interessante do que uma corretinha de alguém tão insípido quanto Chris Brown. A gente ainda vai falar dela amanhã. Do sujeito aí, ninguém vai se lembrar.

(22:48) HUMOR? Seth Rogen, espero que você não seja o autor desse texto. Essa tentativa de ser engraçadinho usando psicologia reversa é um fracasso.

(22:45) O CIRCO CHEGOU. Enquanto o Diego vai comer o Big Mac dele, uma breve observação: Interessante esse show do Chris Brown. Dá a impressão de que o sujeito realmente se esforçou, se matriculou numa escolinha de circo e está há cinco meses ensaiando - cinco horas por dia, segunda a sexta - para fazer bonito no VMA. Enquanto isso, a Britney parecia estar encenando uma versão da Broadway de Um morto muito louco, carregada de dançarino-michê em dançarino-michê. Ponto para Chris Brown, e saio de fininho.

(22:44) RIHANNA. DE NOVO. Tem rehab pra overdose de Rihanna? Vamos precisar. Ellla, ella...

(22:41) SEGUNDO SHOW. Rosario Dawson apresenta o mala Chris Brown, que paga de Chaplin. Como isso ainda vai longe e não tô a fim de me estressar no primeiro terço da premiação, vou ali fazer um sanduíche e já volto.

(22:38) MINIBLOCOS. Qualé a desses blocos de 2 minutos? Será que sacaram que, em tempos de YouTube, moleques de 15 anos não ficam mais tempo do que isso em frente da TV? É divertido ver a MTV rebolar pra se adequar a essas mudanças. Eles falham na maioria das vezes.

(22:35) MAROON 5. Eu gosto desse último disco. Little of your time é uma das músicas do ano. Prontofalei.

(22:32) COLABORAÇÃO MAIS EXPLOSIVA DO ANO. Kanye e 50 Cent juntos. Melhor coisa da noite até agora. Mas, como Tiagão disse, é tudo marketing. Minha preferida aí Sexyback, do Justin com Timbaland. Mas quem leva é Beyoncé com Shakira. O que duas bundas notáveis não fazem, minha gente?

(22:31) FOO FIGHTERS. Essas aberturas de bloco não têm muita graça. E a música nova dos Foo Fighters é uma bosta. Prontofalei.

(22:21) JENNIFER HO. Por que Jennifer Hudson tem que falar como se ainda estivesse em Dreamgirls? Tá no contrato dela? Ela apresenta um prêmio de nome intraduzível. Aposto que isso não vai existir ano que vem. Má idéia. Justin Timberlake levou. Alguém entendeu o propósito dessa bodega? É por que faltaram categorias, é isso? Ano que vem premiam o melhor mug shot. Seria mais divertido.

(22:13) VAMOS AO QUE INTERESSA. Resumo do bloco:
- Britney Spears está morta e enterrada.
- Rihanna tá aí pra jogar a pá de cal na defunta cocainômana.
- Quero aqueles óculos do Kanye West.

(22:08) MONSTER SINGLE OF THE YEAR. É o prêmio de música do ano. Fall Out Boy, Avril Lavigne, Rihanna, Lil'Mama, Mims, Plain White Tś, Shop Boyz, Daughtry, T-Pain, Timbaland. Deu Rihanna, claro. Agora fique com a música na cabeça até dormir. Ella, ella, ê, ê.

(22:04) GOD BLESS SARAH. Sarah Silverman fez uma piada inacreditável com Paris Hilton no Movie Awards, mas poupou a patricinha dessa vez. O yada yada yada inicial não está tão bom, though.

(22:03) COMEÇOU. Britney no palco seminua, playback, música horrível, mocréias se esfregando nela. A cantora parece dopada, olha fixamente para o mesmo ponto, não move os músculos da cara. Crack, cocaína ou cachaça? Sarah Silverman é legal, apesar disso.

(21:56) WAITING. Aguardando o começo da bagaça enquanto tomo um iogurte. Aproveito para, pela primeira vez, parar e ver esse programa da Daniela Cicarelli, Batalha das Modelos. Uma das juradas é Sheila Mello, a ex-loira do Tchan. Um dos jurados é um dos emos do Hateen. MTV Brasil, teu segundo nome é decadência.

9.9.07

Do the dance



Hoje, vocês sabem, rola o Video Music Awards, que a MTV brasileira transmite a partir das 22h. Vocês sabem, também, que o show de abertura será da incansável Britney Spears, que já está ensaiando feito (?) doida para não pagar mais um mico em rede nacional.

Assista ao vídeo desse atentado ao bom senso, se tiver coragem, aqui.

Talvez vocês saibam que o Fall Out Boy, o Maroon 5, Rihanna e outras celebridades do mundo pop que nosso amigo Diego adora competem por alguns dos prêmios principais. Aliás, o Diego topou colaborar com este (ainda) raquítico blog e (ainda) não se manifestou sobre o assunto. Vamos que vamos?

Vocês devem saber que a disputa entre os clipes do ano está uma bagunça. Se meu corporativismo macho me obriga a torcer por What goes around...comes around, a canção singela que o Justin Timberlake gravou para martelar ainda mais o caixão de uma ex ingrata (Britney Spears, quem mais?), também fico meio balançado pela performance do Daft Punk em Stronger, do Kanye West.

Dúvida cruel.

Mas, sério, quando um vídeo do Justice está na parada, não dá mais pra torcer pra ninguém. Os franceses que saíram do nada e hoje estão com tudo lançaram um dos clipes mais bacanas da temporada: D.A.N.C.E. Assista e filie-se ao fã-clube.

Fantasmas? Na minha casa?



Is there a ghost in my house?

Quem faz a pergunta é o Band of Horses, que retorna um ano depois do emocionante Everything All the Time com um disquinho (curto, aliás) chamado Cease to begin.

E tem fantasma? Tem. Mas a capa sombria esconde o quanto este é um álbum simples, chocante de tão simples. Se bobear, mais modesto que o anterior.

O disco, que só sai lá fora em outubro, já espirra melancolia por aí. Minha favorita, por enquanto, é No one's gonna love you. Triste, triste. Linda, linda.

Só ouvi uma vez, mas dá a impressão de que o quarteto ainda está treinando os cavalos para um espetáculo de parar o trânsito. Que vem aí.

Será que melhora nas próximas audições?

Ouça! Is there a ghost, no My Space.

8.9.07

Wild on Brasília



Há objetos estranhos muito melhores. Há objetos estranhos muito piores. Mas não há objeto estranho como o Brasília Music Festival Moto.

Para começo de papo: que raios é Brasília Music Festival Moto, meu Deus?

Um evento que une, numa mesma cidade (Brasília, onde mais?), motociclistas barbudos, roqueiros saudosos, patricinhas de ocasião, agroboys de penetra, um turbilhão de bandas cover (Led Zeppelin! Pink Floyd! Por que não Scissor Sisters?), exposição de motos, mecânicos cafas e, finalmente, ídolos de reality show transmitido pelo People and Arts. Seria prenúncio do fim dos tempos?

Infelizmente, não. Eu estive lá. O mundo não acabou. E, pior, os motoqueiros selvagens não são mais tão selvagens. Não, já que o Steppenwolf saiu do palco às 23h50 sem que nenhum fã tivesse sido esfaqueado brutalmente. Outros tempos.

Steppenwolf quarentão? Eles são tiozinhos competentes, eles tocam Born to be wild e Magic carpet ride, mas pouca gente queria saber disso. E eles se esforçaram para conseguir alguma torcida. "Este é nosso penúltimo show, nunca mais viremos tocar no Brasil", avisou o vocalista, John Kay. O público, nem tchuns. Muitos vestiram a jaqueta de couro e picaram mula na Harley Davidson. Outros foram comer yakisoba na praça de alimentação. Outros se masturbavam escondidos depois de ver a moto mais linda e gostosa de todas.

Mas a atração principal, pasmem, não era os veteranos do rock, e sim... Os ídolos de reality show transmitido pelo People and Arts!

Desculpe minha ignorância, mas até ontem eu não sabia o que era American Chopper. Não sabia muito menos o que era Orange County Choppers. OCC, menos ainda. A sigla soaria para mim como nome de alguma doença nova relacionada a radicais livres ou ao efeito destrutivo dos vídeos do YouTube.

Acontece que o trio do OCC (que, na tevê, exibem o talento para criar motos personalizadas em uma oficina à Big Brother) é grande no Brasil. Ou pelo menos entre os motociclistas. Ou com o Lula, que comeu churrasco com os gringos (veja foto acima). Ou entre as patricinhas de ocasião. Estavam todos eufóricos quando Paul Junior, Paul Senior e Mikey subiram no palco principal. Depois do Led Zeppelin cover, antes do Steppenwolf.

Eles foram apresentados pelo Supla. Eles traziam uma moto inspirada na arquitetura de Niemeyer. Eles não tinham nada a dizer além de "hello, Brazil". Mas a platéia queria isso mesmo. Isso e frisbees autografados. Por sorte, eles trouxeram caixas de frisbees. Uns quinhentos. Todo mundo conseguiu sair do show, no Autódromo, com um frisbee na mão. Quando uma patricinha de ocasião passou perto de mim, quase não sobreviveu: foi atingida no rosto por um maldito frisbee. Eu mesmo quase levei um na testa.

Supla não cantou, o OCC acenou acompanhado de uma trilha sonora à NBA, à boxe em Las Vegas, à Rocky Balboa. O público delirou. Principalmente quando abriram a sessão de perguntas dos fãs. Um deles gritou: "Paul Junior, you have to fuck a brazilian woman right now!"

Ele só podia estar de brincadeira. As patricinhas de ocasião eram duas ou três. As outras mulheres que compareceram ao Autódromo tinham por volta de 65 anos, vestiam jaquetas pesadíssimas, eram bigodudas e muito bem casadas.

Objeto estranhíssimo, esse festival.

Lógica da mentira



Há quem diga que o novo álbum do Liars, a começar pelo título (Liars, ***), representaria o momento mais simples e acessível desse trio de cientistas malucos nascidos na Austrália, criados na selva de Nova York.

Discordo. Na verdade, acho até o contrário disso: enquanto os anteriores carregavam conceitos cristalinos (nem por isso fáceis, mas pelo menos explícitos), este cubo-mágico aqui nos dribla quando tentamos decifrá-lo.

É um enigma.

Já que, ao contrário de They Threw Us All In A Trench And Stuck A Monument On Top (o álbum de dance-punk, de 2001), They Were Wrong, So We Drowned (o álbum niilista, de 2004) e Drum's Not Dead (o álbum experimental e percussivo, de 2006), Liars é... ahn... O que é Liars?

Primeiro, ao rótulo mais preguiçoso: este seria, para quem quer terminar logo com esse assunto, uma espécie de síntese para a estética anárquica grupo. Um álbum composto por pedacinhos dos trabalhos anteriores. Até certo ponto, é isso mesmo. Plaster clouds of everything, que abre o disco, vampiriza o revival de art rock do início da década. Já Leather prowler, que vem mais adiante, sabota o projeto com bat-macumba made in Berlim.

Só que, para azar de quem trancou-se nesse raciocínio, o álbum oferece muito mais. Como compartimentar os ritmos dancantes de Houseclouds? E a doçura de Protection, que chega a lembrar Flaming Lips? E o que dizer da psicodelia enérgica de Freak out, reverência direta a Frank Zappa? Onde tudo isso se encaixa?

Liars confunde. E confunde por parecer um álbum de singles imaginários - cada faixa aponta para uma direção - criado por uma banda absolutamente cerebral, que compõe com um nível de distanciamento quase matemático.

Daí a estranheza toda. Cada vez mais fica patente que o Liars expande um sério trabalho de pesquisa ritmica (o jogo percussivo retorna aqui, ainda mais complexo) enquanto brinca até despretensiosamente com estilos, melodias, com a expectativa de quem acredita conhecê-los.

Ainda não os conhecemos. Eles nos enganam. Eles mentem com a cara lavada. Tão próximo e tão distante do nosso coração, Liars é um álbum verdadeiramente esquizofrênico. Talvez o conceito seja esse. Ou talvez, em busca de outra resposta satisfatória, tenhamos que quebrar nossas cabeças mais uma vez.

O álbum Liars foi lançado pela Mute.

Ouça! Plaster clouds of everything e Freak out, no MySpace.

7.9.07

A present you've never expected

De queixo caído com o vídeo da abelha malvada? Pois, depois da overdose de efeitos especiais, nada como um passeio unplugged por uma pacata área residencial de Paris.

É o que faz o Menomena nesta inacreditável versão franciscana de Wet and rusting, talvez o grande momento do álbum Friend and Foe. Retrabalhar com sutileza uma canção cheia de quebras de ritmos e intromissões eletrônicas não é para qualquer um.

Eles vencem o desafio nesta bucólica criação do programa sui generis Take Away Show, do La Blogothèque.

Pelo menos as criancinhas francesas, que não são bobas nem nada, aprovaram.



Genial.

À sombra do vulcão



Há bandas que, meio sem querer, funcionam como símbolos para um certo estado de coisas da música pop - de como se cria e se consome canções hoje em dia. Duvido muito que a intenção do grupo em algum momento tenha sido essa, mas o Blitzen Trapper é isso aí.

A trajetória desse sexteto de Portland vai assim: começou como uma espécie de agremiação informal, lançou três álbuns por conta própria, adotou a postura de distribuir CDs de graça nos shows e, incapaz de escolher um estilo só (e, repare, sem a obrigação de), optou por transitar desencanadamente entre o country, o punk, a psicodelia e todos os tantos sabores da incrível sorveteria da história do rock.

Não foram descobertos por grandes gravadoras, mas por blogs e sites de música. A Pitchfork elegeu o novo álbum, Wild Mountain Nation (**), como parte da seção Best New Music. Atenta ao hype que se formava, a Spin rasgou seda para o disco. E assim, em julho, a patota assinou com a Sub Pop.

Lembra a historinha do Clap Your Hands Say Yeah? Lembra, ainda que em proporções bem menores. O interessante disso tudo é que o Blitzen Trapper se revelou uma banda que realmente merecia ter sido descoberta. Justificou o falatório. E, sem as ferramentas do mundo em que vivemos, provavelmente nada disso nunca aconteceria. Até por um simples motivo: eles não fariam muita questão.

Comparado (com algum exagero, alguma justiça) ao grande Wowee Zowee, do Pavement, o disco tem momentos que lembram os primeiros álbuns do Wilco e outros que apontam para o Super Furry Animals despirocado da época de Guerrilla - às vezes parece Creedence, às vezes parece Deerhoof. Vá classificar. No bololô, tem até uma faixa com um quê de electro, a minha favorita: Sci-fi kid.

No site oficial, tosco como manda o figurino, eles avisam que a banda formou-se "à sombra do vulcão Mt. Hood", e que agrada a públicos de "todos os grupos socioeconomicos". O vocalista, Eric Earley, já afirmou que não compra discos, não sabe os nomes das músicas que escuta e é fã do Panda Bear.

Talvez para materializar esse estado permanente de confusão mental, o álbum flui à montanha-russa, entre picos de genialidade e vales de caos, como uma seleção de mp3 criada pelo seu irmãozinho de três anos de idade.

Sinal dos tempos, eu entendo. Na verdade, entendo mais do que exatamente amo.

O álbum Wild Mountain Nation foi lançado pela Lidkercow Ltd.

Ouça! Wild mountain nation, no MySpace

***

Em tempo

O blog Gorilla vs. Bear colocou no ar uma canção novinha do brilhante, espetacular, incontornável Caribou. Yo-yo, que está em um novo CDzinho distribuído na turnê européia, poderia muito bem ter sido incluído em Andorra, um dos álbuns viciantes do ano. Tem flautinhas psicodélicas, percussão desencontrada e barulhinhos eletrônicos sintonizados na freqüência errada. Uma belezura.

6.9.07

The best thing that you've ever had

"Vou tocar agora uma música que não foi escrita no meu idioma, nem no de vocês, mas que eu gostaria muito de ter escrito. Infelizmente, não escrevi."

Foi assim, e em espanhol, que o uruguaio Jorge Drexler apresentou agora há pouco aqui em Brasília uma versão voz-e-violão para High and dry, do Radiohead. Por pouco não perdi esse belo show, no CCBB, por um projeto que une artistas brasileiros com convidados de países vizinhos. Parece que se chama Mercosul Musical, algo assim.

No encontro, Drexler topou com Arnaldo Antunes e com Paulinho Moska. O terceiro, aliás, só parecia estar em cena como uma espécie de elemento cômico. Tentou tocar a música de abertura (sobre, obviamente, a América Latina), tropeçou na letra e teve que começar de novo. Quando recebeu Drexler, trocou um refrão por outro e... Certo, levamos todos na esportiva.

Drexler faz macias canções de amor a partir de Lavoisier. Arnaldo é concretista perdido na selva do pop. O encontro dos dois não me pareceu imediatamente interessante, mas faz todo sentido.

Mas voltando ao Radiohead. Um amigo, que também viu o show, saiu do teatro desesperado atrás de um disco do Drexler só por causa da versão à milonga para High and dry. Era tarde e as lojas estavam fechadas. Ele então correu para a casa de uma amiga dele e, desesperado, conseguiu gravar o CD.

Caso de vida ou morte. Em homenagem ao sujeito à beira do abismo, aí vai um vídeo com a interpretação de Drexler para a canção mais triste do mundo (em uma versão tosca registrada de um pocket show na FNAC de Valencia por um sujeito que sairia muito bem como câmera do Paul Greengrass).

Celebrity trash-match, parte II

Um dia depois de revelar uma capa dedicada ao (er) emocionante pega entre Kanye West e 50 Cent, a Rolling Stone norte-americana discretamente entrega, em duas críticas ainda escondidas no site deles, como aposta nesse vale-tudo.



Graduation, de West, se deu melhor. Ganhou 4,5 estrelas (uma raridade para padrões da revista) e foi jogado lá nas alturas.

"É mais enxuto que Late Registration, sem tantos ornamentos de produção. Melhora a cada audição. Primeiro você vai gostar do disco. Depois, amá-lo", escreveu Nathan Brackett.



Já o infame Curtis, do 50 Cent, até surpreendeu com dignas 3,5 estrelinhas.

"Como em The Massacre, Curtis se divide entre faixas mais pesadas e mais lentas, e pela primeira vez deixa que os convidados cantem os melhores trechos", avaliou Rob Sheffield.

Sério: alguém se importa?

Quem é o inimigo?



Depois de umas quinhentas reformulações gráficas, o semanário inglês velho-de-guerra New Musical Express (que também atende por NME, leia ên-ê-mi) inventou uma listinha de álbuns que estão quentes, oh tão quentes, no momento.

(Eu, que sou carioca e malandro, não compro o jornalzinho, mas dou uma espiada de vez em quando na megastore mais próxima. Sou dos que acreditam que, de 2000 em diante, esse artigo importado inflacionado passou a não valer nem R$ 1.)

Vocês sabem que a publicação adora descobrir, de cinco em cinco dias, a maior banda britânica de todos os tempos. Exatamente por isso, é engraçado como o primeiro álbum do The Enemy, We'll Live and Die in These Towns (**), permanece firme no primeiro lugar desse top 10 por sei lá quantas semanas. Impressionante.

Seriam os novos Arctic Monkeys? Os novos Klaxons? Não se sabe. O que se sabe é que a NME está investindo pesado nesse trio teen (o vocalista tem 18 anos) de Coventry. São chamados de heróis da classe operária. São comparados ao Oasis. Roubaram dos Chemical Brothers o primeiro lugar nas paradas da ilha. Tá bom ou quer mais?

Não sem alguma resistência, finalmente cheguei a esse tão badalado álbum de estréia. E não posso dizer que caí da cadeira de tanta emoção. Nem que detonei a cadeira de tanta fúria. É um disquinho até bem competente, ainda que prove como os ingleses estão estagnados num formato de revival do pós-punk que parece não ter mais para onde correr.

O resenhista da NME está certo: eles agradam pela franqueza como narram historinhas de um cotidiano duro, de subempregos e romances fracassados (o mesmo universo do Arctic Monkeys, do início do Oasis, do Libertines, do Hard-Fi etc). Tudo devidamente empacotado em refrões movidos a energético no esquemão "uê-a êa ôô" e "ê-ah ê-ah ô-ô".

Na faixa-título, pelo menos, eles se arriscam a vencer essa fórmula de sucesso e prestígio na Inglaterra. É uma canção tão mais sofisticada e emotiva que chega a destoar do restante do disco - que, mesmo óbvio até a medula, rende alguns hits de pista como Away from here e 40 days and 40 nights.

O problema não está com o Enemy, uma banda ok que ainda tem muito a crescer. Mas com o NME, que está fazendo direitinho o serviço de reduzir o rock inglês a níveis gritantes de mediocridade.

O álbum We'll Live and Die in These Towns foi lançado na Inglaterra pela Warner.

Ouça! Away from here, no My Space

5.9.07

Celebrity trash-match

Eis a capa da próxima Rolling Stone norte-americana: o tão aguardado, tão anunciado, tão emocionante e tão violento combate entre... quem se importa?



Não pude dar muita trela quando ouvi falar na briga entre Kanye West e 50 Cent para ver quem vende mais discos (ambos lançam novos álbuns terça que vem). Lembrei imediatamente da presepada entre Oasis e Blur, lá em meados dos anos 90, na minha amarga e traumatizante juventude.

Na época, todos queriam saber qual dos dois singles lançados no mesmo dia chegaria em primeiro lugar nas paradas britânicas: Country house ou Roll with it?

Country house venceu. E não ocuparia a minha lista das 100 melhores canções do Blur (será que eles têm 100 canções?). Roll with it não chega a ser superior.

Estamos todos calvos de saber: é tudo marketing torpe. No caso, para aquecer o mercado de hip-hop - que anda mal das pernas. Hoje em dia, qualquer atriz adolescente de Hollywood aparece mais em tablóides que rappers encrenqueiros.

Quem é preso com mais freqüência, diz aí? Paris Hilton ou Jay-Z? Quem usa mais crack? Lindsay Lohan ou Nas?

Para tentar compreender com alguma profundidade esse confronto infame de machos vaidosos (e para provar que sou mestre em futilidades), fiz o test-drive nos dois discos. Como era de se esperar, me decepcionei feio. Com ambos.

O do Kanye West, Graduation, que merece um post só para ele (e vai ter, aguardem), era o que mais prometia. Tem Daft Punk, certo. Mas peca ao transformar Late Registration (um grande disco) em molde fácil para o sucesso. Tem Jon Brion na produção de uma faixa (fraca, aliás), tem Chris Martin em outra. Tudo igual. Melhor: tudo diluído e mastigadinho.

A graça daquele outro álbum, a meu ver, era o tanto de dolência que escorria no pop divertido de West. Brion tratou de encontrar os pontos sensíveis do rapper. Este aqui parece simplesmente uma coleção (em piloto automático) de candidatos a hit. Decente, agradável, às vezes saborosa, mas só isso mesmo. E gravar uma música (chamada Big Brother) todinha sobre a relação com Jay-Z... Acabou o assunto, mano?

O do 50 Cent, Curtis, consegue ser pior. Eu ainda assumo gostar do primeiro disco do fortão, mas estou quase me envergonhando disso. A preguiça domina as letras. A preguiça domina a escolha dos samplers. A preguiça me domina quando tento falar sobre esse disco. Então, melhor deixar quieto. Merece um post só para ele? Talvez não. Vou pensar no caso.

Então combinado: terça que vem, vamos nos juntar para acompanhar o espetáculo da decadência do rap.

No, no, no

Sem dar vexame, Amy Winehouse diz "não, não, não" para essa bobagem de reabilitação, se veste de pirulito e faz bonito no Mercury Awards.

A música é a singela Love is a losing game (título mais apropriado para o momento da moça, impossível).



Dica do Felipe.

Meu quarto, meu mundo



O sueco Jens Lekman, 26 anos, admite que nunca leu Viagem ao Redor do Meu Quarto, do francês Xavier de Maistre. Mas assume que o título do livro de 1794 serviu de guia espiritual para o álbum Night Falls Over Kortedala (***), que chega hoje às lojas da... Suécia.

Nos Estados Unidos, desembarca só em outubro. No Brasil, talvez nunca.

A referência literária o veste com perfeição. Por dois motivos: 1. O pop barroco de Jens pode até soar às vezes grandioso, mas é arquitetado quase todo em esquema caseiro, e 2. O compositor trabalha com samplers de discos antigos para, no esquema recorte-e-cole, chegar a canções que parecem novinhas em folha.

É, digamos, uma espécie de "homem que copiava" europeu. Pertence sim àquela geração ansiosa que, satisfeita com o título, dispensa o livro. Para economizar tempo.

Essa aflição (e aí está o lado meio milagroso desta história) não transparece no disco, que impressiona pela forma cristalina e elegante como filtra um milhão de influências. Desde já, está cotado para contaminar listinhas de fins de ano de jornalistas daqui, dali e de todo lugar (na Pitchfork, aliás, o álbum recebeu uma nota alta... até demais?).

Se a sonoridade revela tantos detalhes quanto a de um álbum do Sufjan Stevens, a pose de crooner irônico e deprê faz de Jens descendente do Magnetic Fields, de Jarvis Cocker, de Morrissey. Mas ele tem marca: usa melodias pomposas para observar o cotidiano de um bairro sueco monótono da janela de uma casa friorenta. "Não haverá beijos esta noite", e ele começa assim, na faixa And I Remember Every Kiss.

Logo depois, arrisca embalos disco, arranha um rockabilly datado, desaba de amores em baladonas monumentais. Trancado no quarto, mas com a cabeça a mil.

O álbum é lançado na Suécia pelo selo Service.

Ouça! The opposite of hallelujah (salvar destino como)

4.9.07

E o Mercury Prize foi para...

... Klaxons, pelo hype-do-bem Myths of the Near Future.

Ano passado, o prêmio muito respeitado pelos britânicos (e mais ou menos só por eles) ficou com o Arctic Monkeys.

Cada vez mais confirmo a impressão de que a zona eleitoral dessa peleja aí é localizada na redação da New Musical Express.

Mas que seja. Viva! Leia a notícia toda aqui.

Abelha do mal

Friend and foe, do Menomena. Ainda estou muito, muito endividado com esse disco.

Neuras do mundo moderno: na correria louca de um dia-a-dia insano, ouvi algumas vezes o álbum do trio de Portland, elegi Wet and rusting uma das canções favoritas do ano e deixei (injustamente) de lado o que, para muita gente boa, representa um dos grandes momentos do indie rock em 2007.

Bom motivo para uma reavaliação? O clipe de Evil bee, animação digital dirigida por Stefan Nadelman.

O diretor é responsável pelo curta Terminal Bar, que venceu prêmio de júri em Sundance em 2003. E, confira, o rapaz tem futuro.



A música, além do mais, é uma lindeza. Oh, to be a machine. Oh, to be wanted, to be useful, diz a letra. Não é isso o que todo mundo quer?

***

E esgotaram os ingressos para duas noites de São Paulo do Tim Festival. A do dia 25, com Antony and the Johnsons e Cat Power, e a do dia 27, com Feist. Não é que eu não era o único trouxa neste mundo? Posso dormir tranqüilo.

Homens são de Vênus



Passei um tempinho perdido em questões filosóficas sobre o novo disco do indefectível Super Furry Animals, que chegou semana passada às lojas gringas.

De tanto tentar, acabei esquecendo dele. Seria esse o pior dos sinais?

De qualquer forma, não dá para desprezar. O nome do bicho é Hey Venus! (**, e estou sendo bonzinho), e pode ser interpretado como uma espécie de Furries for Dummies. A banda está no oitavo álbum e já soma onze anos de carreira. Talvez, nessas condições, o melhor mesmo seja gravar trabalhos assim: despretensiosos, simplérrimos, enxutos, sem firulas.

Para quem os acompanha há muito tempo, soa fácil até demais. Para eles, pode ter sido a única saída.

Nem parece, mas é um projeto conceitual. "Várias músicas acompanham uma personagem feminina chamada Venus, que sai do interior rumo à metrópole", explicou o vocalista Gruff Rhys (aliás, o álbum solo dele lançado no início deste ano, Candylion, me soa mais interessante).

Explorar um tipo de psicodelia melancólica pode render resultado agradável, mas eles já não tinham feito isso (com mais impacto, aliás) no ótimo Phantom Power?

Compartilho da sensação do crítico da Uncut , John Mulvey, que escreveu o seguinte no (ótimo) blog dele:

"É errado esperar que uma banda muito boa expanda o próprio som? O disco do Super Furry Animals é adorável, mas parece simplesmente frustrante - como se o fato de eles gravarem onze boas canções agora já não fosse mais suficiente"

Bingo.

O álbum Hey Venus! foi lançado lá fora pela Rough Trade.

Ouça! Run-away e Show your hand, no MySpace.

3.9.07

Do nada a lugar algum

Que eles não eram exatamente normais, não eram exatamente sociáveis, você já suspeitava. Agora, isso?

Todo mundo comigo: Los Hermanos!!


Bem, não. Difícil reconhecer o visual de primeira, mas o som é marca registrada. Riffs quebrados, vocais sobrepostos, refrões sobre refrões: eis o Pinback, de volta mais cavernoso que nunca.

No início, este era um projeto quase todo eletrônico, lembra? Hoje, quanta diferença.

A música: From nothing to nowhere, uma das melhores do ano. Está no álbum novo, Autumn of the Seraphs, que ainda estou tentando decifrar com paciência, compreensão e carinho (é impressão minha ou a coisa só é genial até a segunda faixa?).

O Diego diz que é um dos melhores do ano, e ele geralmente acerta.

Perdeu, prêibói!

Sério: R$ 400?

O que se compra com R$ 400? Um iPod Shuffle, daquele pequenininho e bonitinho que você prende na camisa enquanto corre no parque, sai por R$ 274,50.

Um edredom bacana, de 230 fios, vale algo em torno de R$ 330. Quem banca os acessórios da própria cama sabe que edredom é um roubo de que ninguém consegue escapar. Tipo cota de IPVA.

Pois meu ingresso para ver Spank Rock (não conheço muito), Hot Chip (esse é classudo), Björk (dizem que essa turnê Volta é chatinha, chatinha), Juliette and the Licks (prefiro a atriz), Arctic Monkeys (caio apenas moderadamente no hype) e The Killers (fake!) no Tim Festival, em São Paulo, Arena Anhembi, domingão, 18h30, saiu por exatamente R$ 400.

É o preço da tal área VIP. Mais conhecida como "a única área de onde os shows poderão ser acompanhados com um mínimo de decência".

Me senti vítima de seqüestro-relâmpago, juro. O ingresso me pareceu tão caro que quase dei meu carro de entrada. Mas era a única forma de assistir a toda essa gente e não gastar o dobro e ver metade do que eu quero ver (o que aconteceria fatalmente na cidade maravilhosa cheia de encantos mil).

Alguém me explica por que essa tarifa desproporcional?

Ainda mais num ano em que o Tim deu dezenas de passos para trás com uma escalação que, além de abandonar o tradicional figurão-bacana que sempre alegrava os mais nostálgicos (depois de Brian Wilson e Elvis Costello, por que não Neil Young acústico tocando os clássicos que todo mundo quer ouvir e dizer amém?), se mostra enferrujada, "desantenada" (existe o termo?) com o que rola por aí.

Cadê New Pornographers? Cadê The Shins, seria pedir muito? Merecíamos pelo menos Sufjan Stevens. Ou Interpol. Animal Collective seria jóia. Ou, quem sabe (seria uma maravilha), The National.

Já olhei para esse ingresso cinco vezes. Na quinta, ele olhou para mim e disse: "seu trouxa!"

It’s been a long time, long time



Um ianque de 21 anos metido a brincar com sons do leste europeu? Ainda hoje, há quem encare o primeiro álbum do Beirut (i.e., Zach Condon), Gulag Orkestar, como uma bela de uma armação embrulhada para consumo indie.

Não era. E o álbum novo do rapaz, The Flying Club Cup, está aí para provar que vocês (ou alguns de vocês) estavam errados.

Nada de conclusões precipitadas, já que é um daqueles discos para digerirmos muito, muito lentamente. Por enquanto, dá pra notar que o projeto de Condon é ainda mais complexo do que tudo o que o primeiro disco sugeria.

Hoje sabemos, por exemplo, que o menino-prodígio recorreu aos climões à filmes de Kusturica para compor uma espécie de trilha sonora para uma foto de duas moças e um carro na beira de uma estrada qualquer (que ilustra a belíssima arte da estréia). Primeiro a imagem, depois a canção.

Agora, o método é repetido. O disco novo, ode ao pop barroco, foi inspirado em clássica foto tirada em 1910, por Leon Gimpel, em um festival de balões em Paris. "Uma das imagens mais bizarras que já vi", Condon observou. Tá explicado.

Às vezes, as canções lembram Rufus Waniwright lá do primeiro disco. Outras soam simplesmente inclassificáveis. E, em comparação ao álbum anterior, elas ganham em volume, em sutilezas: Condon agora tem uma banda para tirar do papel as bizarrices que inventa, e isso também explica muita coisa.

No site novo do Beirut tem uma canção nova para baixar. Recomendo que vocês deixem a desconfiança de lado e corram até lá. Mas o bom mesmo é ouvir o disco todo, que conta uma historinha para ser degustada com queijo brie.

O álbum será lançado em outubro pela Ba Da Bing!

Ouça! A sunday smile, no site oficial

2.9.07

Intriga de quatro pessoas



Eles vêm do Paraná e atendem por Charme Chulo. Difícil fazer apostas numa cena tão movediça como a do indie rock brasileiro, mas vamos nessa: entre as novas bandas que saltitam por aí, é uma das que eu adotaria como mascote.

Eles estão prontos. A começar pelo vocalista, Igor Filus (na foto, o assustado de cabelo encaracolado), que, esquelético que só ele, domina o palco com uns trejeitos epiléticos à Ian Curtis/Renato Russo. Depois, ainda tem o som: mistura de pós-punk com lamento sertanejo.

Uma estética que junta alhos e bugalhos poderia soar o truque mais forçado do planeta, mas eles saem-se surpreendentemente bem até nisso. O guitarrista Leandro Delmonico, primo de Igor, usa a viola caipira como uma espécie de segunda guitarra. Funciona.

No show que eles fizeram sexta-feira aqui em Brasília, às 2h30 da madrugada no Gate's, os quatro provaram saber muito bem como convitar a platéia a transitar entre riffs à Franz Ferdinand e romantismo descabelado à Frank Jorge. As letras não fazem lá muito sentido (e há erros bizarros de português no encarte do álbum), mas as roupinhas à Mazzaropi? Já valeriam o espetáculo.

O disco, lançado pelo selo paulista Volume 1 com o goiano Fósforo Records (**), é despretensioso e juvenil (no bom sentido), e ainda vem com uma das músicas sublimes do ano: Geada no seu coração, que fecha o repertório. Intriga de cinco pessoas, que vem um pouco antes, é quase um pequeno quebra-cabeças.

Vanguart, Supercordas, agora Charme Chulo. Folk rock brasileiro é o hype do ano, e eu não tenho nada a reclamar.

***

Ouça! Solito a reinar e Não deixa a vida te levar (clique "salvar destino como")
Site oficial! http://www.charmechulo.com.br/

Um mundo mais pra lá



Smokey Rolls Down Thunder Canyon
Devendra Banhart
(XL Recordings, ***)

Minha história com o Devendra Banhart, se é que tenho uma, começou com o álbum Rejoicing in the hands, de 2004, que trouxe o bafafá em torno do folk indie e foi o primeiro dele que ouvi. Mas não dá pra dizer que começou de verdade aí. Eu ouvia o que ele cantava, entendia as letras, assobiava as melodias, mas o neo-hippie, rei de uma certa New Weird America (podemos colocar o Animal Collective nesse bololô também?), me encarava com uma pose de "you don't know me at-all".

Eu não o conhecia. Mesmo.

Ainda não o conheço, mas foi possível formular uma idéia um pouco mais concreta sobre a figura durante o Tim Festival do ano passado, quando ele entrou no palco trêbado, bailou desconjuntado, tropeçou na fiação, chamou um Zé-Ninguém da platéia para tocar guitarra (N.E: um dos momentos mais constrangedores da vida de Tiago Superoito), gemeu umas duzentas mini-canções e fez o Caetano rebolar solitário em meio e uma platéia indignada. Foi assim. Quem esquece?

Aquela experiência foi necessária para que eu me aproximasse desse álbum novo, Smokey Rolls Down Thunder Canyon (se não o melhor, talvez o mais divertido do bicho-grilo).

A lógica do show, de que tudo pode acontecer e vai acontecer mais cedo ou mais tarde, é cristalizada no disco - que deixa a impressão de uma colagem de cinco ou seis jams. Uma delas no Rio de Janeiro, outra no balancê suave de um barco à deriva, outra no banheiro de um motel de beira de estrada, outra muito melancólica (às três da manhã?), outra num filme cubano para turista ver.

É uma baderna. Mas, nessa altura, que disco do Devendra Banhart não seria o caos materializado? Eu me acostumei. Mas nem essa familiaridade faz o álbum parecer calculado (calculado para metralhar em todas as direções possíveis). Devendra é despreparado para criar um álbum coeso, conceitual, controlado, não dá. Ele é o cabeludo que acende a fogueira e fica dançando até o dia nascer, sem voltar para casa. Nós vamos embora, ele fica.

O álbum começa assim: "há um mundo mais pra lá!" (em espanhol), e segue à toda.

Com mais latinidad (fajuta, fajuta) e mais dolência que o anterior, Cripple crow, o disco prolonga a idéia de uma grande confraternização de simpáticos doidões. Daí, tem Rodrigo Amarante na doce Rose (que poderia estar no último do Los Hermanos), tem Gael García Bernal em Cristobal, Chris Robinson (Black Crowes) e até o irmão da Joanna Newsom, o Pete.

Se seguir esse caminho, Devendra continuará a gravar álbuns soltinhos e permeáveis, daqueles que ninguém mais grava. A fogueira ainda arde.

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Ouça! No MySpace, Bad Girl e Carmencita.

Favoritas da casa! Seahorse, Tonada Yanomanista, My Dearest Friend.