7.9.07

À sombra do vulcão



Há bandas que, meio sem querer, funcionam como símbolos para um certo estado de coisas da música pop - de como se cria e se consome canções hoje em dia. Duvido muito que a intenção do grupo em algum momento tenha sido essa, mas o Blitzen Trapper é isso aí.

A trajetória desse sexteto de Portland vai assim: começou como uma espécie de agremiação informal, lançou três álbuns por conta própria, adotou a postura de distribuir CDs de graça nos shows e, incapaz de escolher um estilo só (e, repare, sem a obrigação de), optou por transitar desencanadamente entre o country, o punk, a psicodelia e todos os tantos sabores da incrível sorveteria da história do rock.

Não foram descobertos por grandes gravadoras, mas por blogs e sites de música. A Pitchfork elegeu o novo álbum, Wild Mountain Nation (**), como parte da seção Best New Music. Atenta ao hype que se formava, a Spin rasgou seda para o disco. E assim, em julho, a patota assinou com a Sub Pop.

Lembra a historinha do Clap Your Hands Say Yeah? Lembra, ainda que em proporções bem menores. O interessante disso tudo é que o Blitzen Trapper se revelou uma banda que realmente merecia ter sido descoberta. Justificou o falatório. E, sem as ferramentas do mundo em que vivemos, provavelmente nada disso nunca aconteceria. Até por um simples motivo: eles não fariam muita questão.

Comparado (com algum exagero, alguma justiça) ao grande Wowee Zowee, do Pavement, o disco tem momentos que lembram os primeiros álbuns do Wilco e outros que apontam para o Super Furry Animals despirocado da época de Guerrilla - às vezes parece Creedence, às vezes parece Deerhoof. Vá classificar. No bololô, tem até uma faixa com um quê de electro, a minha favorita: Sci-fi kid.

No site oficial, tosco como manda o figurino, eles avisam que a banda formou-se "à sombra do vulcão Mt. Hood", e que agrada a públicos de "todos os grupos socioeconomicos". O vocalista, Eric Earley, já afirmou que não compra discos, não sabe os nomes das músicas que escuta e é fã do Panda Bear.

Talvez para materializar esse estado permanente de confusão mental, o álbum flui à montanha-russa, entre picos de genialidade e vales de caos, como uma seleção de mp3 criada pelo seu irmãozinho de três anos de idade.

Sinal dos tempos, eu entendo. Na verdade, entendo mais do que exatamente amo.

O álbum Wild Mountain Nation foi lançado pela Lidkercow Ltd.

Ouça! Wild mountain nation, no MySpace

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Em tempo

O blog Gorilla vs. Bear colocou no ar uma canção novinha do brilhante, espetacular, incontornável Caribou. Yo-yo, que está em um novo CDzinho distribuído na turnê européia, poderia muito bem ter sido incluído em Andorra, um dos álbuns viciantes do ano. Tem flautinhas psicodélicas, percussão desencontrada e barulhinhos eletrônicos sintonizados na freqüência errada. Uma belezura.

2 comentários:

Rodrigo disse...

A comparação com Deerhoof me assusta um pouco, mas, bem, se parece com Pavement, Wilco e o cara é fã do Panda Bear (o que talvez levaria a ser fã de Animal Collective, não?) não deve ser de todo mal não, hehehe.

Tiago Superoito disse...

Mas Deerhoof é legal, pô.