
No fim do arco-íris, o que encontramos? Breu.
Depois de ouvir algumas dezenas de vezes o esperadíssimo
In Rainbows (***), já dá para chegar a algumas conclusões. A primeira: estratégias terroristas de distribuição à parte, este não é um álbum revolucionário como
Ok Computer e (principalmente)
Kid A. A partir de
Kid A, aliás, o Radiohead parece ter construído um playground musical visitado desde então. Daí o segundo veredicto, que deve aborrecer aos fãs mais aflitos: este disco é um prolongamento, uma seqüência - tanto dessas experiências obsessivas com "paisagens sonoras" quanto das emoções desnudadas, cruas, de
The Eraser, projeto solo de Thom Yorke.
Por isso mesmo, o álbum remete aos climas e a proposta de
Amnesiac, a (ótima, por sinal) continuação de
Kid A. Mas está longe de representar só isso. Depois de ter rompido artisticamente com as expectativas da indústria fonográfica, agora o Radiohead termina o trabalho ao quebrar a cadeia comercial com um disco que, nas mãos de uma EMI da vida, seria vendido da forma mais errada. Como comercializar
In Rainbows? Muito difícil. Este é um álbum-casulo criado como peça de um quebra-cabeças que a banda contrói aos poucos, sem preocupações com cobranças alheias - lançado no vale-tudo das lojas de discos, provavelmente seria devorado pelos leões.
Coerente com um processo criativo que vem lá de
Kid A,
In Rainbows também é composto de estilhaços. Deixa a impressão de que cada faixa foi trabalhada exaustivamente em estúdio como organismo independente, com exigências próprias (bem diferente dos conceitos de
Ok Computer e, em menor escala,
The Bends). Se em
Kid A elas todas apontavam para uma imagem de um mundo também fragmentado e desiludido (se você quiser um álbum para começar a entender o início do século 21, é esse),
In Rainbows abre uma diversidade maior de temas. Um painel não tão disparatado quanto o de
Hail to the Thief, mas que parece agora se voltar para dentro, para questões existenciais, amorosas, sexuais.
É fácil entender as comparações que se faz (e se fará) do disco com os procedimentos da soul music: faixas como
House of Cards, All I need e
Nude buscam em acordes repetitivos e calorosos, típicos do gênero, o caminho para a intimidade. "Eu não quero ser seu amigo, só quero ser seu amante", avisa Yorke, em
House of Cards.
Nude vai na carne: "Você vai pagar pelos seus pensamentos sujos" (e tem gente por aí interpretando a letra como um poema para a pornografia, ou para masturbação).
Yorke avisou que trata-se de um disco para o momento em que, sentados no metrô, nos perguntamos sobre o sentido da vida que levamos. Mas todos os álbuns do Radiohead, de certa forma, não sugerem esse tipo de neura?
In Rainbows troca a paranóia generalizada por um desconforto mais pessoal, interno. "Estou preso neste corpo e não consigo sair", observa
Bodysnatchers. "Como fui terminar onde eu havia começado? Como fui terminar onde tudo havia dado errado?", questionam os primeiros versos de
15 Step. O álbum segue nessa escuridão, com flashes rápidos de otimismo. "Atingi o fundo, e só então escapei", conclui
Weird Fishes/Arpeggi.
No final de
Bodysnatchers, Yorke nos acalma. Aos gritos de "I'm alive", ele resiste. Mas, se
In Rainbows deixa um gosto, é amargo: a agonia não acaba, apenas se transforma enquanto o homem doente amadurece. Certa vez, eles avisaram que começar um novo disco sempre parecia uma tarefa assustadora, um salto no vazio.
In Rainbows é, como os álbuns anteriores, retrato de um momento. Agora, de um instante psicológico, de um mal-estar tão particular que talvez nem todos nós tenhamos o direito de compartilhar.
Baixe! O álbum inteiro, no site oficial.
O álbum In Rainbows foi lançado de forma independente pela banda. Estima-se que tenha sido baixado 1,2 milhão de vezes apenas no dia do lançamento, 10 de outubro.