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15.10.07

User-friendly?



Mostrei o álbum do Radiohead a um amigo meu cujo gosto musical limita-se a Beatles e Keane, e ele: "isso é jazz?"

Rodei o CD lá em casa (descontroladamente) sábado à tarde e minha mãe: "desliga isso que a gente ainda nem conhece os vizinhos direito."

Agora abro a Pitchfork e, na crítica de In Rainbows, o resenhista Mark Pytlik usa o termo "user-friendly" para definir a bolachinha. Sério? "User-friendly"? Talvez para quem tenha decorado as letras de todos os outros álbuns da banda, pode até ser. Para o restante dos mortais, garanto que o Radiohead continua soando como uma esfinge. E não é todo mundo que quer decifrá-la.

De qualquer modo, o texto da Pitchfork está bacana, a nota não poderia ter sido mais entusiasmada (9.3? 9.3!) e a brincadeirinha de pedir para o leitor escolher a cotação do disco é... Bem, de todos os lançamentos de 2007, este é o mais aberto a brincadeirinhas e nerdices do tipo.

Mais gente boa escreveu sobre ele: tem resenhas no Guardian (cinco estrelas), e elogios rasgados até no site da Billboard.

Por enquanto, permanece a questão: ninguém vai ousar jogar pedras neles, é? Nem a reação a Kid A foi tão unânime. Estamos no aguardo.

12.10.07

In Rainbows: um veredicto



No fim do arco-íris, o que encontramos? Breu.

Depois de ouvir algumas dezenas de vezes o esperadíssimo In Rainbows (***), já dá para chegar a algumas conclusões. A primeira: estratégias terroristas de distribuição à parte, este não é um álbum revolucionário como Ok Computer e (principalmente) Kid A. A partir de Kid A, aliás, o Radiohead parece ter construído um playground musical visitado desde então. Daí o segundo veredicto, que deve aborrecer aos fãs mais aflitos: este disco é um prolongamento, uma seqüência - tanto dessas experiências obsessivas com "paisagens sonoras" quanto das emoções desnudadas, cruas, de The Eraser, projeto solo de Thom Yorke.

Por isso mesmo, o álbum remete aos climas e a proposta de Amnesiac, a (ótima, por sinal) continuação de Kid A. Mas está longe de representar só isso. Depois de ter rompido artisticamente com as expectativas da indústria fonográfica, agora o Radiohead termina o trabalho ao quebrar a cadeia comercial com um disco que, nas mãos de uma EMI da vida, seria vendido da forma mais errada. Como comercializar In Rainbows? Muito difícil. Este é um álbum-casulo criado como peça de um quebra-cabeças que a banda contrói aos poucos, sem preocupações com cobranças alheias - lançado no vale-tudo das lojas de discos, provavelmente seria devorado pelos leões.

Coerente com um processo criativo que vem lá de Kid A, In Rainbows também é composto de estilhaços. Deixa a impressão de que cada faixa foi trabalhada exaustivamente em estúdio como organismo independente, com exigências próprias (bem diferente dos conceitos de Ok Computer e, em menor escala, The Bends). Se em Kid A elas todas apontavam para uma imagem de um mundo também fragmentado e desiludido (se você quiser um álbum para começar a entender o início do século 21, é esse), In Rainbows abre uma diversidade maior de temas. Um painel não tão disparatado quanto o de Hail to the Thief, mas que parece agora se voltar para dentro, para questões existenciais, amorosas, sexuais.

É fácil entender as comparações que se faz (e se fará) do disco com os procedimentos da soul music: faixas como House of Cards, All I need e Nude buscam em acordes repetitivos e calorosos, típicos do gênero, o caminho para a intimidade. "Eu não quero ser seu amigo, só quero ser seu amante", avisa Yorke, em House of Cards. Nude vai na carne: "Você vai pagar pelos seus pensamentos sujos" (e tem gente por aí interpretando a letra como um poema para a pornografia, ou para masturbação).

Yorke avisou que trata-se de um disco para o momento em que, sentados no metrô, nos perguntamos sobre o sentido da vida que levamos. Mas todos os álbuns do Radiohead, de certa forma, não sugerem esse tipo de neura? In Rainbows troca a paranóia generalizada por um desconforto mais pessoal, interno. "Estou preso neste corpo e não consigo sair", observa Bodysnatchers. "Como fui terminar onde eu havia começado? Como fui terminar onde tudo havia dado errado?", questionam os primeiros versos de 15 Step. O álbum segue nessa escuridão, com flashes rápidos de otimismo. "Atingi o fundo, e só então escapei", conclui Weird Fishes/Arpeggi.

No final de Bodysnatchers, Yorke nos acalma. Aos gritos de "I'm alive", ele resiste. Mas, se In Rainbows deixa um gosto, é amargo: a agonia não acaba, apenas se transforma enquanto o homem doente amadurece. Certa vez, eles avisaram que começar um novo disco sempre parecia uma tarefa assustadora, um salto no vazio. In Rainbows é, como os álbuns anteriores, retrato de um momento. Agora, de um instante psicológico, de um mal-estar tão particular que talvez nem todos nós tenhamos o direito de compartilhar.

Baixe! O álbum inteiro, no site oficial.

O álbum In Rainbows foi lançado de forma independente pela banda. Estima-se que tenha sido baixado 1,2 milhão de vezes apenas no dia do lançamento, 10 de outubro.

11.10.07

Por que ele ri à toa?



Impossível falar em outro assunto, eu sei. Então vamos a um resumão do que anda rolando por aí sobre o novo álbum do Radiohead, o ótimo In Rainbows.

Na Rolling Stone, a cobertura é completíssima. Tem faixa-a-faixa, tem crítica do Rob Sheffield (um dos principais resenhistas da revista, que lascou 4 estrelas e meia para o álbum), tem o Jonny Greenwood comentando que "é divertido descobrir qual o valor que as pessoas dão para a música", tem um hilariante comentário "em tempo real" do disquinho, escrito em plena madrugada por um fã descontrolado.

Na Pitchfork, um guia completo do álbum. Também com faixa-a-faixa e clipes ao vivo. O site avisa que a resenha do disco sai semana que vem. Já vai ser tarde...

O New Musical Express jogou a banda na capa e remeteu ao site oficial do grupo, com um recado de Thom Yorke. "As últimas duas semanas foram muito tumultuadas", o vocalista avisa. Nem precisava ter nos lembrado disso. A revista também faz um joguinho interessante: pede para que os fãs enviem críticas do álbum.

Estou na segunda audição e... não é que eles acertaram mais uma vez? Este pode ser definido como o momento R&B do Radiohead. Ou mais ou menos isso. Ou... Eles habitam um mundinho todo deles, não?

10.10.07

Revolução pela metade



Já aviso: ainda não consegui ouvir o novo álbum do Radiohead.

Não foi por falta de esforço. Recebi uma senha, a senha travou. Tentei novamente, o site deu pau. Resultado: apelei para o velho companheiro Soulseek. Sem culpas, já que gastei uma graninha (bem pouca, mas uma graninha) no disco. Depois digo o que achei dele (quem tiver testado a novidade e quiser contribuir, a caixa de comentários está aí para isso mesmo).

Junto com a Pitchfork, tomei um banho de água fria ao descobrir que a versão digital de In Rainbows tem a qualidade (sofrível) de 160kbps. Ou seja: se você, fã ardoroso, decidiu pagar R$ 100 pelo álbum, ganhou de presente uma versão que vai soar estourada se você decidir plugar o iPod no som do seu quarto. Entendeu a picaretagem?

Ok, ok, disco do Radiohead é disco do Radiohead e provavelmente correríamos atrás dele mesmo se a qualidade do som fosse de 60kbps. Somos loucos. Somos trouxas. Somos loucos e trouxas ao mesmo tempo.

Só uma coisa: se todos os fãs da banda decidirem fazer um protesto virtual, será que eles soltam uma versão de 192kbps do álbum?

Ou vamos ter que esperar até dezembro para captar as sutilezas do projeto? Mundo cruel, banda esperta.