30.9.07

O ano em que o rock saiu de férias



Há 30 anos, os Sex Pistols lançaram Never Mind the Bollocks e mandam o rock às favas. Ou melhor: a faceta mais, digamos, ambiciosa do rock, personificada nos longos solos de guitarra do heavy metal, nos climas épicos do progressivo. O ano de 1977 mudou tudo e mais um pouco.

Tá, isso você sabe. Acontece que, para lembrar-nos da explosão, a revista Spin lançou uma edição toda dedicada ao big bang.

A revista está cheia de artigos interessantes sobre o período, muitos deles disponíveis na internet. E, como não poderia deixar de faltar, listas! Uma delas, de Melhores Álbuns Lançados em 1977. Como adoramos listas e listas são nossas vidas, não poderíamos passar sem esta.

A lista completa está aqui, no Stereogum.

Dos que entraram, nossos favoritos:

The Clash, The Clash
My Aim is True, Elvis Costello
Damned, Damned, Damned, The Damned
The Idiot, Iggy Pop
Lust for Life, Iggy Pop
Leave Home, Ramones
Rocket to Russia, Ramones
Suicide, Suicide
Talking Heads 77, Talking Heads
Marquee Moon, Television
Pink Flag, Wire

E esses são apenas os álbuns punk. Em 1977, deve ter sido meio difícil fazer listinhas de fim de ano, hem?

O homem da caverna



Eu poderia estar aqui analisando (com bastante atraso) a história da sex tape de Meg White, eu poderia estar fazendo graça do site falso que criaram para divulgar o sétimo álbum do Radiohead, eu poderia estar roubando, eu poderia estar matando. Poderia. Mas vamos falar de música, vamos?

Eis a grande dificuldade de incluir o Iron and Wine em qualquer assunto. Em qualquer blog. Em qualquer rodinha de conversa Como encontrar um gancho, uma conexão entre as melodias de Sam Bean e este mundo doido em que vivemos? Não dá. Ele não bate perna com a Britney Spears. Ele não está na trilha sonora de Grey's Anatomy. Se bobear, ele nem sabe o que é Grey's Anatomy. O sujeito parece habitar uma caverna numa fazenda na Califórnia. De onde sai regularmente para contar-nos como é a vida lá dentro.

Estado das coisas: no momento em que até o folk surtou, e caiu no liquidificador psicodélico de um Animal Collective (ou de um Devendra Banhart), Bean ainda vive na época em que Bonnie "Prince" Billy era cotado como um provável mártir do indie rock. E que Nick Drake... Bem, Nick Drake era Deus.

O terceiro álbum do Iron and Wine, The Shepherd's Dog (**), há de receber elogios entusiasmados de quem sente saudades dessa época mais ou menos recente. Com mais fome que o próprio Billy, Bean se esforça para buscar novos caminhos, diversificar a própria sonoridade, refinar a produção e assim, quem sabe, chegar a um público que está em outras ondas. Tem até uma faixa, chamada Wolves, que inclui um certo acento dub-doidão na estética discreta do moço.

Mas (e esse conflito é interessante, notem) Bean tenta expandir a própria caverna sem aborrecer os antigos frequentadores do nicho. Curioso como é nesse remake de obras anteriores onde o álbum mais acerta: em baladas lindas como Ressurection Fern e Carousel - tristes toda vida, simples o suficiente para frisar o tom melancólico da voz de Bean. Quando tenta algo que vá além desse tipo de lamento solitário, ele também acerta. Mas o fato é: o trovador não precisa mais que isso.

E até ele deve saber que, hoje em dia, ampliar o próprio habitat pode ser esforço em vão. Aí mora o lado complicado da história: o Iron and Wine parece fadado a gravar álbuns cada vez mais belos e acessíveis. A questão é: alguém ainda se interessará por eles?

O álbum The Shepherd's Dog foi lançado semana passada pela Sub Pop.

Ouça! O álbum todo, no MySpace.

27.9.07

Em tempo real: Video Music Brasil



Pois é, garotada. Tenho uma tarefa meio ingrata esta noite. Em vez de fazer palavras cruzadas ou debater com minha avó sobre quem teria matado Taís ou comer uma bacalhoada ou brincar com meu cachorro Simba, fui convocado para representar O Grude no Vídeo Music Brasil (conhecido por estas bandas também como, singelamente, VMB).

Óbvio: não fui convidado para viajar de Brasília a São Paulo para acompanhar a festança lado a lado com, digamos, a Cicarelli. O Diego, que mora em São Paulo e é VIP, vai se infiltrar no mui badalado evento e, talvez um dia desses (do jeito que ele anda relapso com este blog, nunca), nos contará sobre o que viu, viveu e experimentou. Se Deus quiser.

Por aqui, por enquanto, ficamos com uma surpreendente (para vocês e para mim) cobertura em tempo real desta premiação da MTV que, honestamente, não interessa muito a quase ninguém. Em época de YouTube, como já diria Diego, quem se interessa profundamente por ver clipes na tevê? Em época de crise total e absoluta da indústria fonográfica brasileira, alguém ainda tem paciência de acompanhar a Pitty ganhar cinco prêmios importantes a cada semestre?

Paciência, né.

É por isso que chutei o balde este ano: não sei quais são os indicados, não tenho a menor idéia de quem vai vencer e ficarei boquiaberto, exatamente como você vai ficar, se a Sandy ganhar o prêmio de melhor cantora lírica de 2007. Caixinha de surpresas, essa vida.

Não estou totalmente, totalmente desinformado a respeito do VMB. Sei que, além da Pitty, o Cachorro Grande recebeu uma pá de indicações. E que o Nx Zero é queridinho da juvenília delirante. Que Marilyn Manson e Juliette and the Licks vão passar na alfândega e nos oferecer uma palhinha com selo de produto importado. E que vai ter Ira! na parada. Ira! Sério? Mas o Ira! não tinha acabado?

Que seja. Repito: você não esperava por esta cobertura (por isso mesmo, você não estará acompanhando esta cobertura hoje, exatamente agora, já que você não sabia da existência desta cobertura), nem eu. Estou com uma dor horrível de cabeça, com 40 graus de febre, dor de barriga e meus pés estão gelados (não sei se isso é bom ou ruim, no contexto). Resistirei bravamente até o fim da maratona? Acompanhem daqui a pouco. Já venho.

Cobertura em (uh!) tempo real

21h42 - No pré-show, Marcos Mion amarrou um pano de prato no pescoço e deu um selinho na Juliette Lewis. Antes disso, rolou a eleição do sujeito mais pançudo do ano. Não perdemos nada por enquanto, vou ali saber da novela.

21h57 - Ainda no pré-show, Lulu Santos cortou a Penélope Nova e, talvez para poupar-nos de tanto constrangimento, apagaram a luz e os dois ficaram no breu por alguns segundos. Ahn. Uma coisa: esse pré-show tá rolando debaixo do bloco, é? Em algum prédio empresarial? Que pilastras são aquelas? Lugar-comum: todos os convidados dizem que é uma honra participar do VMB, mas que o bom mesmo é a festa depois da premiação. Por que será, né?

22h21 - No interminável pré-show, a incansável Penélope Nova quase obriga o Paulinho da Viola a fazer a dança do siri. Isso é só o começo. Vou pegar um mate gelado.

22h25 - Dinho Ouro Preto comentou que participar do VMB é "a melhor coisa do mundo, cara", e que toda a premiação "é foda, cara", e que ele quer ver "grandes shows, cara", e que se apresentar ao vivo "é uma responsa, cara". Pois é, cara. Volto quando essa bagaça começar, cara.

22h39 - Ao contrário da maior parte dos shows de abertura do VMB, este não teve problemas sérios de som. De indiazinha, Juliette Lewis está mandando bem, obrigado. Antes dela, a Cicarelli fez piadinha escrota com a Britney Spears e distribuiu galhos de arruda para a platéia. Começou.

22h44 - Revelação do ano: Fresno. Eles se vestem como se tivessem acabado de assaltar um brechó, e, até de forma bastante previsível, afirmam estar vivendo o "melhor momento da vida". Vidas vazias, ó.

22h56 - O hit do ano é Razões e emoções, do Nx Zero. E o nome da canção diz tudo.

23h00 - Ao piano, Sandy canta agoniadíssima uma música sobre a dificuldade existencial de lidar com as agruras do showbusiness e com as tensões do comércio eletrônico no século 21. Enquanto isso, Júnior tenta nos convencer de que toca tão bem quanto o Santana.

23h06 - Um tal de Strike tirou do Vanguart o prêmio Aposta MTV. Não ouvi e não gostei.

23h17 - O vencedor do "web hit do ano" é o Vai tomar no cu. Não sei se vocês acreditam, mas nunca vi isso! Sério. Eu sabia da existência, mas nunca me interessou nem nada. O que eu estou fazendo aqui, minha gente?

23h20 - Mas Juliette Lewis cantando "vai tomar no cu" foi genial. A moça tá roubando o show ou é impressão?

23h21 - Já a Pitty... É aquela mesma coisa. Sempre. E mais uma vez.

23h29 - Vestida de gueixa, Lovefoxx apresentou da Inglaterra o prêmio de artista internacional do ano acompanhada das minas do Cansei de Ser Sexy. Venceu o Red Hot Chili Peppers. Venceu do White Stripes. E do Justin Timberlake. Só no Brasil essas coisas acontecem, tsc.

23h40 - Pitty ganhou clipe do ano. A música é Na sua estante. Que (acreditem) nunca ouvi. Mas que, percebam, parece com muitas outras músicas que ela cantou antes.

23h47 - Tá rolando um show de rap sonolento, sonolento. Vou ali tomar um iogurte.

23h53 - Na "banda dos sonhos" da MTV, adivinha quem é a vocalista? Hein? Hein? A Pitty, claro. Sensação de já ter visto este programa de tevê antes...

23h56 - João Gordo pergunta para a ex-BBB Íris qual é a sensação de participar do VMB. "Nunca imaginei estar aqui", começa a moça. "Parece até um pesadelo. Ou um sonho maravilhoso". Ou o quê?

0h02 - A "banda dos sonhos" arrisca Ainda é cedo, da Legião. E eu queria muito já estar dormindo nessa altura do campeonato.

0h08 - Na categoria Você fez, os espectadores da MTV são provocados a fazer clipes inspirados nos indicados a melhores vídeos do ano. O resultado é muito tosco, mas mesmo assim eles ganham um prêmio, sobem no palco e fazem discurso.

0h10 - Eu disse a vocês que estava muito amargo, não disse?

0h14 - Lobão acústico é o embuste do ano. Pronto, falei.

0h18 - Ok, vá. Até aqui, este é um dos VMBs mais profissionais da história da MTV Brasil. Sem tropeços, sem gafes, uma coisa tão correta que... dá saudades dos chiliques de Caetano Veloso...

0h28 - O Cachorro Grande tem o melhor show? Hmm. Bacana, mas os últimos do Los Hermanos mereciam ter sido lembrados. A ceninha entre Bárbara Paz e Paulo César Peréio confirmou que este é o VMB dos palavrões. É porra. É caralho. É puta que pariu. É cu. Minha vó ficaria chocada.

0h35 - Marilyn Manson tá parecendo a garota do Fantástico que voltou das trevas para puxar o pé das criancinhas inocentes. Que porra de maquiagem é essa?

0h37 - Até agora, se eu tivesse que dar uma nota para o VMB, seria 5. Foi um programa de tevê assim: bem na média, na média. Menos histérico que o VMA, mais previsível que último capítulo de novela. A MTV Brasil está numa cilada: num país com uma indústria de discos falida, vai ser inevitável que o VMB do ano que vem pareça muito com o VMB deste ano. A Pitty vai ganhar muitos prêmios. E o Charlie Brown vai ser indicado a alguma coisa.

0h52 - Artista do ano: Nx Zero. Tá certo. É coerente. Eles têm o hit do ano. Eles são a versão masculina da Pitty, submetida a um cruzamento com o CPM 22. Eles têm franjas. Eles têm moicano estiloso. Eles usam boné para trás, feito os Backstreet Boys. Eles estão aí. Eles vão invadir sua praia. Ok. Me tirem daqui. Agora. Já.

Boa noite.

Atualização (14h55 de sexta) - Diego avisa que não conseguiu comparecer ao VMB (sorte a dele). Por isso, tudo o que vocês têm aqui será exatamente tudo o que vocês terão sobre esse assunto fajuto. Considerem-se premiados.

24.9.07

PJ Harvey: When under ether

Desculpe-me. Foi mal. Mas, desde sexta-feira passada, praticamente metade da redação d'O Grude (isto é: eu) encontra-se sem palavras diante deste álbum tão curto, tão cruel e tão lindo chamado White Chalk.

Sei que vocês não estão nem aí para ele, mas eu insisto em fazer de conta que não sei.

Antes de virarmos a página para um outro assunto qualquer, mais mundano e menos assustador, que tal relembrarmos que, além de ter lançado o disco mais esquelético da temporada, PJ Harvey também escolheu como primeiro single uma canção que... ahn, bem, er... Ouça aí, depois conversamos.



Dizem que o vídeo não é oficial nem nada, mas eu não duvidaria se fosse. Ah, os mistérios doloridos da alma humana!

21.9.07

O retorno da musa atormentada



À revista Uncut, PJ Harvey admitiu um método quando grava um novo álbum: se possível, ele será idealizado como o oposto perfeito do disco anterior.

Faz todo sentido. Ou pelo menos desde To Bring You My Love, de 1995. Se aquele era um trabalho com forte acento de blues e soul, o seguinte, Is This Desire (1998), seria esparso, com influências de trip hop.

Depois, como seguir adiante? Com belos passos para trás. Contra o minimalismo, Stories from the City, Stories from the Sea (2000) recorreu a guitarras violentas, a letras simples e confessionais - um álbum de rock (e uma obra-prima). Uh Huh Her, de 2004, rompeu o formato em uma espécie de pós-punk arredio, árduo. Um dia, depois o outro.

Dentro desse processo de evolução "na marra", o novo e impressionante White Chalk (***) é mais um capítulo. Que pode ser encarado como um episódio surpreendente dessa história - mas só por aqueles que não conhecem essa história.

No álbum, a moça retorna aos produtores Flood e John Parish (dos álbuns de 1995 e 1998), mas sem saudosismo. Para começar, guarda as guitarras no armário. Para espanto de... quem? Dedica-se principalmente ao piano, que aprendeu (ou, como ela prefere afirmar, tentou aprender) especialmente para o disco. O resultado é o álbum mais fantasmagórico da musa deprê. Parece ter sido gravado numa casa mal-assombrada, com goteiras, morcegos e uma menininha desesperada presa no porão.

Com faixas concisas, arranjos econômicos, refrões invisíveis e letras enigmáticas, é álbum-de-rodapé para ser guardado na mesma estante de The Eraser, do Thom Yorke, Pink Moon, do Nick Drake e Vespertine, da Björk. Melhor ainda: um disco triste e quebradiço que merece figurar ao lado de toda essa gente boa. Estaria PJ ouvindo Joanna Newsom?

Pouco importa, já que faixas como Dear darkness e When under ether são muito diferentes e muito iguais a tudo o que ela já gravou. A dor não passa. "Não me reprima pela forma vazia como minha vida ficou", ela implora, em Broken harp. Engraçado isso: ela faz tudo para mudar, mas continua reconhecível desde o primeiro acorde.

O álbum White Chalk será lançado dia 25 de setembro pela Island.

Ouça! When under ether, na Pitchfork.

20.9.07

Mutantes - mais um fim



Jamari França, do Globo, publicou hoje em seu blog que Zélia Duncan deixou os Mutantes. Zélia era vocalista da banda desde a reunião do grupo, iniciada há pouco mais de um ano e meio. O motivo, segundo a cantora, é sua carreira solo. Em seu comunicado oficial, ela põe panos quentes no assunto:

"Fez um bem enorme pra minha carreira, pra minha vida e para as minhas futuras coragens. Eu que sempre quis me sentir banda, fui parar no olho do furacão! E adorei! Obrigada Sérgio , Arnaldo e Dinho, por me deixarem ser ali, junto com vocês, enquanto durou…pra sempre! Ainda nem sinto meus pés no chão…"

Para quem viu algum desses shows da reunião dos Mutantes e está no time dos que não conseguiram engolir a cantora no lugar de Rita Lee (tipo eu, que os vi na festa de aniversário da cidade de São Paulo, primeira apresentação deles no Brasil depois da volta), a notícia não chega a ser ruim.

Mas o post do Jamari fala ainda em uma "possível baixa" de Arnaldo que, segundo Sérgio, estaria muito cansado por causa da turnê (a ponto de não ter participado de três shows). Sérgio disse que também não sabe se seu irmão participará da gravação do álbum de inéditas da banda, prevista pra começar em outubro.

Ok, já vimos essa história antes. Acho que a gente pode dizer que os Mutantes acabaram. De novo.

ATUALIZAÇÃO (18h06): Jamari atualizou o blog, confirmando a saída de Arnaldo. Ele vai se dedicar a projetos pessoais como o lançamento de seu livro e de dois CDs com a Patrulha do Espaço.

Cabô então.

19.9.07

LCD Soundsystem: Someone great

Uma das músicas mais espetaculares de 2007 finalmente ganhou a chance de se materializar em single e clipe (e eu cheguei a pensar que isso nunca aconteceria!).

Aleluia, irmãos.

Tem uma notícia boa e uma ruim, qual você quer primeiro?

A ruim: o clipe, dirigido por Doug Aitken, não é essa Coca-cola toda. Por isso é inevitável passar os olhos pelas imagens, achar a idéia engraçadinha (um vulto entre nós? Oh) e, finalmente, notar que Someone great, do LCD Soundsystem, é... uma canção espetacular.

Digam se estou errado.



A boa: a música é espetacular, né?

Em tempo
O álbum novo do Foo Fighters, que nem o Diego teve paciência de dissecar, é aquela coisa morna mesmo. Mas venhamos e convenhamos: Dave Grohl nunca conseguiu juntar três faixas tão poderosas quanto as primeiras de Echoes, Silence, Patience & Grace (**). Depois de atacar os "falsários" de plantão (The pretender), desancar Courtney Love pela décima vez (mas com muita classe, em Let it die) e explodir em fúria de macho vingativo em Erase/replace (a minha favorita do disco), não há muito a ser dito. Ah, se álbuns tivessem apenas três faixas...

18.9.07

Chulo, desbocado coração



Você conhece Kevin Drew?

A resposta mais sensata a essa pergunta é "não, não vi mais gordo". Até ontem, poucos conheciam Kevin Drew. Escondido no coletivo canadense Broken Social Scene - ao lado de Feist (é ela na foto aí acima), Emily Haines, Brendan Canning e mais 15 músicos -, o sujeito ficou mais ou menos visível (no núcleo duro do nicho, diga-se) por, durante as performances da banda, distribuir abraços para um público atônito diante do desbunde quase hippie.

É uma espécie de beijoqueiro do indie da América do Norte.

O que pouca gente sabe é que boa parte do caos controlado do Broken Social Scene vem das conexões neurais de Kevin - que, com Brendan, distribui tarefas na banda-comunidade. Por isso, nada mais justo que o primeiro álbum da série Broken Social Scene Presents seja a estréia solitária de Kevin. Daí, nem vale se surpreender: Spirit If... (***) é tão bom (ou melhor) que os recentes da Feist, ou os dois complicadinhos do... Broken Social Scene.

O bacana do projeto é que, apesar de construído como coleção de canções introspectivas e "pessoais", ele é defendido por toda a turma do Broken Social Scene, que toca instrumentos e faz participações até com vocais. É um caso raro (como bem notou a resenha da Pitchfork) de um projeto solo engordado por uma grande banda - mas que nunca deixa de soar como um projeto solo.

Como manda o figurino do rock canadense, as letras de Kevin desabam em fluxos de consciência que, de imediato, não fazem muito sentido. Aos poucos, ele impõe pelo menos uma marca: a forma adorável como destila um tipo chulo de romantismo, em faixas desbocadas (e belíssimas) como TBTF (que significa, veja só, Too beautiful to fuck) e Fucked-up kid. Ele xinga, xinga, e a gente fica tentando entender por que acha tudo quase sublime.

Apesar de abrir com as camadas de ruídos típicas do Broken Social Scene, o álbum logo desvia para sonoridades mais claras e um clima de doce angústia que às vezes lembra Pavement, às vezes Yo La Tengo, às vezes Sonic Youth. São referências que poderiam ter sufocado o moço, mas ele demonstra ter sinceridade para dar e vender.

Não é o que interessa?

O álbum Spirit if... foi lançado esta semana pela Arts & Crafts.

Ouça! Backed on the..., no MySpace

17.9.07

Clipe novo do Interpol

E finalmente caiu no YouTube o belo (e ultrapretensioso, como tudo o que eles fazem) video de No I In Threesome, do Interpol, que havia sido liberado hoje apenas no player de videos da Amazon.com.

Filmado como um único e falso plano-seqüência , No I In Threesome tem ecos de Tarkovski aqui e ali e é beeeem melhor que o frustrante video de The Heinrich Maneuver (que, não fosse pelos dois últimos segundos, seria uma obra-prima).

O clipe é dirigido por Patrick Daughters, que fez videos para a Feist (inclusive o incrível 1 2 3 4), Kings of Leon, Beck, Liars, Muse, vários dos Yeah Yeah Yeahs (Maps é do sujeito) e, pelo jeito, adora um plano-seqüência. Talentoso, ele.



Gostaram?

Ella Ella

Ê, ê.



Gosto mesmo e taí pra todo mundo ver.

15.9.07

R.E.M.: I took your name

Como interpretar o dia em que uma banda muito íntegra começa a lançar desesperadamente coletâneas de greatest hits e álbuns ao vivo? Reflexo de crise das gravadoras? Ou sinal de decadência mesmo?

O R.E.M. faz de conta que o fracasso (alguém lembra?) Around the Sun não existiu e retorna novamente ao próprio passado no projeto R.E.M. Live, que sai dia 16 de outubro pela Warner.

O disquinho terá também versão em DVD. É daí que começam a escapulir os primeiros trechos de registros de shows, já disponíveis nos YouTube da vida.

Como, por exemplo, este aqui: uma performance glam, com um quê da turnê Zoo TV, do U2, para I took your name. A faixa está em um álbum que, mais cedo ou mais tarde, há de ser considerado um dos grandes momentos da banda - ou pelo menos um dos menos previsíveis (Monster, de 1994, que eu adoro).



A letra explica tudinho: I don't want to be Iggy Pop, but if that's what it takes... hey! Ah, certo. Então era isso, Michael Stipe?

Fonte: Stereogum

14.9.07

A volta do Led


O Led Zeppelin está de volta (uhul). Para apenas um show, mas de volta. Os integrantes sobreviventes devem tocar juntos no dia 26 de Novembro, em Londres, em um concerto beneficente que acontece na arena o2 (o antigo Domo do Milênio).

Para comprar ingressos, os fãs precisam se registrar no site do evento e rezarem muito para serem um dos 20 mil felizardos (?) sorteados para comprarem os tickets (cada um custa 125 libras).

Aparentemente, a humanidade inteira está se inscrevendo para o tal sorteio. A NME diz que, só ontem, 25 milhões de pessoas despejaram seus nomes no site.

Depois de ouvir o último disco dos Foo Fighters, aposto que o de Dave Grohl deve estar lá.

Próximas atrações



Ao New Musical Express, Eminem abriu a matraca e informou que está em estúdio - se pudesse, avisou o garoto-enxaqueca, lançaria o álbum novo "amanhã".

Engraçado. Eu tinha quase certeza de que o fiasco Encore seria saída de cena do moço. Ele não estava exausto do showbusiness? Era tudo golpe de marketing? Hmm. Se esse retorno sair tão insípido quanto o do Jay-Z (Kingdom Come merece ser arquivado na seção "grandes equívocos do hip hop"), será o último prego no caixão de uma era.

Já o Coldplay divulgou ao semanário uma lista com nomes de músicas do trabalho novo, com dedo de Brian Eno. Eles dizem que querem um álbum "conciso", com 9 faixas e, estourando, 42 minutos de duração. Cansaram dos épicos gordurosos? Ah, que bom seria.

Promessas e mais promessas.

A revista Rolling Stone, nada boba, juntou alhos e bugalhos e criou um especial bacana com 28 lançamentos previstos para os próximos meses. De Bruce Springsteen (que estou ouvindo neste exato momento, e parece bom) a Alicia Keys. Para cada álbum, um textinho explicando do que se trata, com entrevistas e escambau. Confira aqui (sério, vale a pena). Dá pra saber, por exemplo, que Dave Grohl acredita ter criado "as melhores músicas da vida" no álbum novo do Foo Fighters.

De ilusão também se vive, né mesmo?

13.9.07

Japas cafeinados


J-pop e j-rock são gêneros meio restritos a um gueto no Brasil: o dos fanáticos por cultura japonesa (não necessariamente japoneses), leitores vorazes de mangá e nerds que se vestem como seus personagens preferidos (cosplayers).

Eu não dava muita atenção a bandas vindas de lá até ouvir com um pouco mais de cuidado o disco Now Is the Time! (2006), dos Polysics, uma espécie de Devo japonês animado por Red Bull depois de um choque elétrico.

Há tantas mudanças de andamento em cada música, e tantos barulhinhos, guitarras, sintetizadores e vocais incompreensíveis (em japonês, inglês e em uma língua espacial própria da banda), que a experiência de ouvir o álbum pode se tornar um pouco incômoda em dias propensos a enxaquecas. Eu mesmo ouvi a coisa toda aos poucos, em doses cuidadosamente planejadas para não sofrer uma overdose de informações sonoras.

Baixei só um disco. Vou demorar para baixar outro (há mais 6). Mas vou. Não resisto a nada que pegue a música pop, jogue-a na parede, pise em cima, torça-a, vire-a do avesso e tinja o que sobrou com cores berrantes. O clipe de I My Me Mine dá idéia da diversão caótica da coisa toda:



Ouça! Catch on Everywhere, Baby Bias e Electric Surfin Go Go no MySpace.

Foo Fighters: nada mais a perder



Até tentei entrar em contato com o mui ocupado Diego, mas os contratempos loucos da vida na metrópole impediram que eu fizesse ao rapaz a pergunta que não quer calar: será que ele, fã número um de Dave Grohl, teria ficado de quatro pelo novo álbum do Foo Fighters?

Desde ontem, o disco já deve ter sido testado por mais gente que o público de Tropa de Elite. Oficialmente, ainda nem passei perto dele. Mas já posso adiantar: a nova dobradinha entre Gil Norton (produtor de The Colour & The Shape, o mais saboroso da banda, meu preferido coisa e tal) e o incansável Grohl talvez tenha rendido o álbum mais ambicioso do Foo Fighters - e também o mais perigosamente próximo daquilo que, há alguns anos, chamavam de soft rock.

Sabe The Eagles? Sabe Chicago? Pois bem. Às vezes, em alguns momentos soltos aqui e ali, o novo Foo Fighters estica os braços para alcançar uma espécie de "profissionalismo clean" - com violões dedilhados, solos de guitarra blueseiros, faixas instrumentais introspectivas e o diabo a quatro - que não tem nada, nada a ver com a espontaneidade quase tosca que Grohl colocou em prática na estréia do grupo (de 1994), ainda à sombra do Nirvana.

Tudo isso representa, de qualquer forma, uma vontade de não ficar parado feito poste, de arriscar. Ainda que a idéia dele de sofisticação pareça ser começar uma canção com um, er, violão dedilhado e depois transformar essa mesma melodia em um solo de guitarra apoteótico. Paciência.

Ouvi muito pouco (ainda que não oficialmente, repito) o Echoes, Silence, Patience & Grace para tirar alguma conclusão digna de nota, mas dá a impressão de que Grohl pegou o álbum duplo In Your Honor, juntou o disco acústico com o disco "pesado" (às vezes numa mesma faixa) e deu no que deu.

Até a terceira música, porém, fica uma grande, incontornável questão: por que, nesta maré de shows internacionais de fim de ano, ninguém cogitou chamar o Foo Fighters para dar um pulo até aqui? Eu, que nem curto muito o disco, cairia no choro durante Erase/replace e Let it die.

Levantar estádios? O álbum novo oferece mais três ou quatro argumentos de que, nesse ramo, Grohl ainda é rei.

Ouça! The pretender, no MySpace.