21.9.07

O retorno da musa atormentada



À revista Uncut, PJ Harvey admitiu um método quando grava um novo álbum: se possível, ele será idealizado como o oposto perfeito do disco anterior.

Faz todo sentido. Ou pelo menos desde To Bring You My Love, de 1995. Se aquele era um trabalho com forte acento de blues e soul, o seguinte, Is This Desire (1998), seria esparso, com influências de trip hop.

Depois, como seguir adiante? Com belos passos para trás. Contra o minimalismo, Stories from the City, Stories from the Sea (2000) recorreu a guitarras violentas, a letras simples e confessionais - um álbum de rock (e uma obra-prima). Uh Huh Her, de 2004, rompeu o formato em uma espécie de pós-punk arredio, árduo. Um dia, depois o outro.

Dentro desse processo de evolução "na marra", o novo e impressionante White Chalk (***) é mais um capítulo. Que pode ser encarado como um episódio surpreendente dessa história - mas só por aqueles que não conhecem essa história.

No álbum, a moça retorna aos produtores Flood e John Parish (dos álbuns de 1995 e 1998), mas sem saudosismo. Para começar, guarda as guitarras no armário. Para espanto de... quem? Dedica-se principalmente ao piano, que aprendeu (ou, como ela prefere afirmar, tentou aprender) especialmente para o disco. O resultado é o álbum mais fantasmagórico da musa deprê. Parece ter sido gravado numa casa mal-assombrada, com goteiras, morcegos e uma menininha desesperada presa no porão.

Com faixas concisas, arranjos econômicos, refrões invisíveis e letras enigmáticas, é álbum-de-rodapé para ser guardado na mesma estante de The Eraser, do Thom Yorke, Pink Moon, do Nick Drake e Vespertine, da Björk. Melhor ainda: um disco triste e quebradiço que merece figurar ao lado de toda essa gente boa. Estaria PJ ouvindo Joanna Newsom?

Pouco importa, já que faixas como Dear darkness e When under ether são muito diferentes e muito iguais a tudo o que ela já gravou. A dor não passa. "Não me reprima pela forma vazia como minha vida ficou", ela implora, em Broken harp. Engraçado isso: ela faz tudo para mudar, mas continua reconhecível desde o primeiro acorde.

O álbum White Chalk será lançado dia 25 de setembro pela Island.

Ouça! When under ether, na Pitchfork.

Um comentário:

daniel pilon disse...

achei esse muito bom, em especial grow,grow,grow.