2.9.07

Um mundo mais pra lá



Smokey Rolls Down Thunder Canyon
Devendra Banhart
(XL Recordings, ***)

Minha história com o Devendra Banhart, se é que tenho uma, começou com o álbum Rejoicing in the hands, de 2004, que trouxe o bafafá em torno do folk indie e foi o primeiro dele que ouvi. Mas não dá pra dizer que começou de verdade aí. Eu ouvia o que ele cantava, entendia as letras, assobiava as melodias, mas o neo-hippie, rei de uma certa New Weird America (podemos colocar o Animal Collective nesse bololô também?), me encarava com uma pose de "you don't know me at-all".

Eu não o conhecia. Mesmo.

Ainda não o conheço, mas foi possível formular uma idéia um pouco mais concreta sobre a figura durante o Tim Festival do ano passado, quando ele entrou no palco trêbado, bailou desconjuntado, tropeçou na fiação, chamou um Zé-Ninguém da platéia para tocar guitarra (N.E: um dos momentos mais constrangedores da vida de Tiago Superoito), gemeu umas duzentas mini-canções e fez o Caetano rebolar solitário em meio e uma platéia indignada. Foi assim. Quem esquece?

Aquela experiência foi necessária para que eu me aproximasse desse álbum novo, Smokey Rolls Down Thunder Canyon (se não o melhor, talvez o mais divertido do bicho-grilo).

A lógica do show, de que tudo pode acontecer e vai acontecer mais cedo ou mais tarde, é cristalizada no disco - que deixa a impressão de uma colagem de cinco ou seis jams. Uma delas no Rio de Janeiro, outra no balancê suave de um barco à deriva, outra no banheiro de um motel de beira de estrada, outra muito melancólica (às três da manhã?), outra num filme cubano para turista ver.

É uma baderna. Mas, nessa altura, que disco do Devendra Banhart não seria o caos materializado? Eu me acostumei. Mas nem essa familiaridade faz o álbum parecer calculado (calculado para metralhar em todas as direções possíveis). Devendra é despreparado para criar um álbum coeso, conceitual, controlado, não dá. Ele é o cabeludo que acende a fogueira e fica dançando até o dia nascer, sem voltar para casa. Nós vamos embora, ele fica.

O álbum começa assim: "há um mundo mais pra lá!" (em espanhol), e segue à toda.

Com mais latinidad (fajuta, fajuta) e mais dolência que o anterior, Cripple crow, o disco prolonga a idéia de uma grande confraternização de simpáticos doidões. Daí, tem Rodrigo Amarante na doce Rose (que poderia estar no último do Los Hermanos), tem Gael García Bernal em Cristobal, Chris Robinson (Black Crowes) e até o irmão da Joanna Newsom, o Pete.

Se seguir esse caminho, Devendra continuará a gravar álbuns soltinhos e permeáveis, daqueles que ninguém mais grava. A fogueira ainda arde.

***

Ouça! No MySpace, Bad Girl e Carmencita.

Favoritas da casa! Seahorse, Tonada Yanomanista, My Dearest Friend.

2 comentários:

samuel disse...

É sempre bom ler seus textos, seja o tema qual for, mas que letras coloridas arco-íris são essas???

E eu fiquei meio traumatizado com esse show do Devendra ano passado. Ele, trêbado, fazendo piadinhas horríveis daquelas que só rimos pra não deixar o cara constrangido, Rodrigo Amarante fazendo não-sei-o-quê no palco, platéia sonolenta (também, show num teatro, meia-noite de domingo, ar-condicionado e poltronas macias - um convite ao cochilo), uns covers estranhos de Novos Baianos e Jorge Ben, tudo isso somado a um repertório que não me contagiou nem um pouco, saí adorando o show do Amadou e Marian e metendo o pau no Devendra. E eu só conhecia (e só conheço) o Rejoicing in the hands, que não é lá grandes coisas. O problema é que a estranheza do cara simpatiza comigo e, apesar dos pesares "Quis me suicidar depois de conhecer o Caetano", darei nova chance à sua música.

Tiago Superoito disse...

Esse arco-íris de emoções é só um teste, já desencano disso (até pq é um saco ficar colocando essas cores no blogger).

Também pretendo escrever textos mais curtos, coisas rápidas, deixar o blog mais ágil. Tá começando ainda. Brigado pelo elogios.